A cotovia

Óculos não têm identificador de chamadas, livros não têm identificador de chamadas, simplesmente não são encontráveis. Preciso de sábados. Livros de literatura perdidos, mesmo se pudessem ser chamados por celular na correria dos dias úteis, de que me adiantaria? (A boa e velha literatura é inútil e volta a fazer parte do cardápio dos meus dias.) Opto, assim, por escrever cifrado mesmo, meus bons leitores entenderão. Os maus também, mas não os tenho.

Estaria lendo, agora, e, não, escrevendo. Pois que não encontro os parágrafos de Agualusa, rabisco a ilusão de minhas próprias frases. Abri demais o pensamento, agora. Direita volver! Meu filho se formou no Ensino Médio em um colégio militar, vestiu farda branca, quepe e insígnias, e eu que fui jovenzinha esquerdista me pus a chorar. Engulo em seco. Estou até hoje aguardando que o orador da turma me envie o discurso que vi emocionar cada um daqueles rostos de filhos e mães durante o almoço comemorativo. Coração de pais e mães tem mistérios; mais mistérios que uma vida inteira permite decifrar.

Está dito. Sinto-me piegas se contar o que vi nos rostos dos meninos de cabelo rente ao crânio, sentados diante de suas mães ou pais, em mesas de dez, dispostos em um amplo e solene salão. Cabeças delineadas, cérebros pensantes e, nos olhos, abertura para a alma e o futuro. É tão bonito ver o futuro desafiando jovens! (Eu não sabia assim.) É tão bonito ver a esperança, o desejo de realizar, de construir, o orgulho de vencer uma etapa crucial que os levou de crianças a adultos. “A gente só sabia comer, dormir, brincar”, disse o orador que conduziu cada um a um lugar bem dentro de si mesmo naquela hora. A vida passando, três anos seguidos em uma troca de olhar.

Consegui agarrar o momento, ali! Tão intensamente o vivi, que o peguei. Dei pause. Stop! E de viés passei a observar os fatos da vida ao meu redor. Rugas e fios brancos não são apenas uma deturpação estética. Nem apenas provam a nós mesmos que o tempo passou e que tens um filho de dezoito anos e seus amigos têm filhos casando enquanto outros têm netos. Por dentro, o tempo não passa assim. Da janela dos meus olhos espio a vida desfilando fatos que não me convencem da idade. Os sonhos… Os sonhos parecem garantir ao viver a necessária dose de juventude.

É melhor, penso, acompanhar de perto a vida singrando o tempo. Ou, se preferir, o tempo singrando a vida. Quando se fica velho, é para sempre. E ficar velho é, entre outras coisas, ver os fatos de trás para frente. A segunda coisa melhor do mundo é não saber, porque é tão intensa a primeira melhor coisa do mundo: descobrir! Mas quando se fica velho – salvo a outra opção – é melhor assim. E ficamos velhos aos trinta, quarenta, cinqüenta, sessenta, setenta, oitenta, noventa e, hoje em dia, até cem. O filho envelhecendo tenuamente aos dezoito, aplaudo.

Meu marido sempre advinha a resolução dos filmes. Digo que deveria ser roteirista. Para convencer em um diálogo, muitas vezes usa a metáfora: “Já vi esse filme, o bandido morre no final”. Meu marido é mais velho do que eu, mas é ele quem me rejuvenesce de fato. Fomos ver, ontem, no teatro, a melhor releitura atual de Romeu e Julieta, de Shakespeare: “Juventude Interrompida”. Com a poesia em seu lugar, o bom e velho texto nos fez recordar. “Ouves? é o rouxinol!” – ela diz, querendo reter o tempo nas mãos. “Não, não é o rouxinol!” – ele responde – “Foi a cotovia, arauto da manhã, anunciando a aurora!”.

E, na dobra da vida, nasce sempre mais um dia…

Publicado em Uncategorized | Com a tag | 2 Comentários

Licença poética

A luz da lua com tal força batia na pedra da cidade da serra que a refletia. O paredão do monte brilhava um raro brilho, espelhando a noite com intensidade. O próprio céu – invólucro da branca lua – evocava o brilho negro das noites férteis de lua cheia. Um passado recente, evoco agora. Ficou ali atrás, entre o portão da garagem e a porta batida do carro, a percepção fugaz.

Antes disso, ao final de uma semana, ao fim de um dia de trabalho, uma amiga ao telefone me pergunta: você já viu o céu? Corri para vê-lo. A lua alta, redonda e branca – de um branco perolado intraduzível – reinava ao fim de um dia útil. Era espantoso vê-la – a lua, no céu claro – ao fim de um dia como este.

Começara chuvoso. Mais que isto, trovoadas reinaram na madrugada. O espanto trespassou espinhas na alvorada. O jornal, pela manhã, assinala, no título, que o “verão do medo” se avizinha. Não é nada agradável quando os jornais espelham os nossos temores civis. Mas eles o fazem por dever de ofício.

Entendo eu, há dias, que havia os jornalistas – ao invés de clamarem a juventude para as ruas contra a corrupção cultural brasileira – de tomarem para si a bandeira. Claro como a lua: por dever de ofício, por saturação de velhas notícias, por falta de matéria-prima (a novidade), por puro enfado, enfim, deveriam os jornalistas aboletados na função descer das redações para o protesto.

Creio muito, eu, na legitimidade de um protesto jornalístico contra a corrupção no Brasiu. Quer alguém alvo melhor? Nos dias de hoje? Saboroso repasto seria. Argumento não falta. Jornalistas, cansados de noticiar as mesmas notícias cruzariam os braços contra o status quo. Seria razoável. Saturação do mercado, que carece de sua potente matéria-prima: a notícia. Insalubridade, por exemplo. Quem há que considere saudável, ano após ano, noticiar a mesmice eternamente como se novidade fosse? O que há de mais antigo no país, do que o corporativismo casado com a corrupção?

A corrupção é o tema da hora. Pra mim, sempre foi. Nunca consegui entender os inteligentes listando quais os principais problemas do Brasiu; discutindo se a educação vinha antes da saúde ou depois da alimentação e do saneamento básico. Sa-nea-men-tobá-si-co. Já virou até nome de filme. As palavras empedraram e não se pode culpá-las por isso.

Escrevo as palavras, você sabe, leitor, aproximando-as mais pela música que pelo sentido. Pelas falhas de compreensão, peço perdão, ainda que não ache muito importante. Na literatura, me parece, chamam isso de aliteração: quando a música das palavras fala mais alto do que o sentido. Eu chamo isso “escrever de ouvido”. Ouço bem as ideias de forma que, encadeadas, formem sentido.

Arrasto uma crônica há meses, não sei como chegar ao fim. Publico e ponto. Com desconto. A lua no céu brilha numa terça como se fosse sexta. Hoje é dia de véspera. Amanhã, é feriado. Hoje, um dia nublado, de chuva e variedades, termina brilhante por causa da lua. velha e eterna lua. Esta sim, sempre nova, pelo menos, para mim!

Publicado em Uncategorized | 2 Comentários

Navegar

Ainda que os sons não sejam necessariamente mansos ou delicados, a hora calma acontece quando o tempo para. Pendura-se a vida no cabide ao lado e espera-se. A hora vai passar, é claro. Ela sempre passa, porém, um pouco mais tarde. Pendurar a vida ao lado, no cabide. Vestir roupa diferente. Calçar calçado guardado. Descalçar. Virar o cabelo para o outro lado. Tomar sol. Conversar de coisas que se conversa só quando não se quer necessariamente conversar sobre nada. Deixar o dia correr sozinho, enquanto você anda. Ler o que se gosta. Fazer o que se quer. Não incomodar ninguém. Andar de carro. Andar a pé. Pensar em andar de caiaque. Não andar. Ver as ondas do mar bater. Ver o mar balançar em ondas baixas, semiondas. Ver o mar cor de cana como se fosse verde e achar bonito. Ver o mar-rom e achar bonito. Sentir o cheiro de mijo nas pedras e não se incomodar. Olhar para frente e ver a estátua de Iemanjá. Andar de biquíni. Ficar de roupa molhada. Ficar despenteada e estar bem. Passar batom ou sem. Sorrir. Falar o que se quer sobre o que se gosta. Falar palavrão. Falar palavrão e rimar. Falar palavrinhas como “mar”. Amar. Amar a quem se gosta. Gostar. Dar parabéns. Dizer “alô”. Dizer “amém”. Dizer coisas bonitas. Dizer coisas bobas. Ventar no cabelo. Ventar no rosto. Ventar nas costas. Comer torta. Comer certo. Dispensar underware. Usar óculos. Nadar. Mergulhar na água e subir. Sentir a temperatura gelada e testar. Rolar para dentro da piscina como se fosse normal. Inovar como se fosse um hábito. Ler livros de gente inteligente que conversou com gente inteligente e fez livros. Conversar com gente inteligente. Conversar com gente querida. Sentir o valor da amizade. Sentir o valor da família. Acompanhar o carinho de mãe e filha. Achar bonito. Ouvir o chamado do marido. Ir. Fotografar, mas nem tanto, porque viver é mais importante. Entender inglês. Pensar em português. Olhar de fora para dentro por um momento e esse momento pendurar ao lado, no cabide. Ver filme que gosta pouco sem pensar muito. Pensar em ver um bom filme e não sair. Usar a tarde para dormir. Sonhar, que sem sonho não há futuro. Deitar tarde. Acordar quando se quer. Contar sobre o filho. Falar do passado. Falar do parto. Sonhar com fatos adormecidos. Sonhar fatos dormidos. Lembrar coisas esquecidas. Voltar às dobras da vida. Achar que é março, quando é fevereiro. Pensar que é abril, quando é setembro. Achar normal. Aprender palavras novas. Aprender gírias engraçadas. Sentir-se velho. Sentir-se com a idade que se tem. Sentir que valeu a pena. Viver eternamente como se fosse sábado. Usar as gírias que aprendeu. Usar as palavras como se o mundo fosse seu. Ouvir a risada alheia e sorrir. Sobrevoar o ar e dançar um pouco. Abrir o leque. Admirar sorrisos. Treinar. Usar o corpo para ganhar. Ganhar no corpo a corpo. Pintar as unhas, lixar. Tomar banho ou não tomar. Usar palavras que não são suas. Usar palavras dos amigos. Exclamar. Retardar a noite. Suspender, pendurar. Comer o simples como se fosse soberbo e é. Usar sandália de dedo. Desusar o que se usa muito. Tirar do cabide o que pouco se usa e vestir. Montar um look divertido. Montar um look descabido. Desengavetar coisas. Misturar o que não se combina e combinar. Andar de costas. Pedalar ao invés de correr. Mostrar os dentes no sorriso. Comprar frango de padaria. Ver a vista de prédios lá de cima e achar bonito. Ver o céu com nuvens e não se lembrar. Deitar ao sol de barriga para baixo. Deitar de barriga para cima. Deitar para dormir e acordar. Parar de escrever e ir se banhar. Ir e voltar. Usar vestido. Sonhar alto bem baixinho. Ver a hora passar e os minutos e não se incomodar. Olhar para frente, mas não muito. Olhar pragora. Ser e estar. Aprender com gente nova. Desconeccccctar. Despppppplugar. Desfazzzzzzer. Silenciar. Limpar. Zerar. Olhar para frente, mas não muito. Olhar pragora. Ser e estar. Escrever, porque navegar é preciso. Exclamar!

Publicado em Uncategorized | 1 Comentário

Sujeito & predicado

Eu não escrevo porque. Eu não escrevo enquanto, enquanto não encontro, na vida, um ponto e vírgula. Não escrevo uma crônica entre vírgulas, muito raro. É preciso um porto, uma mínima âncora que garanta que o balançar do barco é passageiro, que o movimento ao menos, tende à pausa. Mesmo a curta pausa do ponto e virgula.

Talvez não apenas para quem perdeu muito tempo na vida, para quem esbanjou essa moeda restrita, hoje vivo de forma positivamente intensa. Ou de uma maneira intensamente positiva, o que dá quase no mesmo e ainda acresce algumas interpretações favoráveis. O ônibus parado, mesmo com o motor ligado, dá a partida para uma crônica. Se ela saísse sempre inteira, num jato, era fácil. Mas não é assim. As palavras empedram dentro quando estanca o fluxo de saída. Quando fecho as portas do delírio em nome do presente sempre, sempre urgente.

Busco a pausa. Minto. Não busco a pausa. Anseio para que ela venha de forma natural e me pegue, informal e disponível. Momento quase impossível. Se estou vigilante para dentro, corro a caçar, no laço, o pensamento: busco a caneta, o papel, o teclado, a memória da frase primal que abre o grito do texto no vazio urbano. Vazio urbano cheio. Multidões. Pessoas em quase todos os cantos. Multidão de pensamentos.

(Quem gosta de números – e há quem saiba até lidar com eles – talvez pudesse estimar o número de pensamentos possíveis em um aglomerado de pessoas em situações diferentes. Ou, melhor, por metro quadrado: em comício de políticos brasileiros, média de dois pensamentos por pessoa: mentiroso e sem nenhuma vergonha, por exemplo. Em um show de rock, média de meio pensamento a cada quatro pessoas, o que parece bom. Não me atrevo aos totais, esses são números para profissionais.)

Ela fechou a janela, ufa, consigo pensar novamente. É preciso salpicar vírgulas no texto apropriadamente. Eu salpico, tentando acertar. Estou até pensando em estudar. As pessoas tremem com as vírgulas, é senso comum. Hoje em dia, eu diria que, na dúvida, as pessoas comem as vírgulas. Economizam. Eu vivo a vida entre uma vírgula e outra, entre uma vírgula e outra, às vezes, quando posso, lanço um traço e pronto. Tenho tempo para um abraço. Ponto. Volto às vírgulas, volto a viver entre uma e outra, entre um telefonema e o conserto do carro, entre uma saudade e um encontro rápido, adiado, porque. Eu não escrevo, porque.

Acredito que, agora, a essa altura do texto, consegui me explicar bem. Embora, honestamente, que salada, hein? Como é que você escreve assim, pergunto para mim? Sofrendo, respondo – sei a resposta. Sangrando durante anos. Desde que alcancei o topo do muro da infância e meu olhar virgem encarou o mundo. A inocência ficou para trás e eu demorei a encontrar o que colocar no lugar. Mas já não posso me queixar, demorei, mas encontrei o caminho de onde quero estar.

Fiz uma visita rápida, ontem, a amigos que nem sempre vejo. Eles gostam de literatura. Eles lêem O Prazer do Texto e A História das Vírgulas – algo assim. São livros finos, que também quero pra mim, assim que a vida dobrar na próxima esquina. Conversamos sobre pontuação, meu tema favorito em escrituras. (Tem gente que gosta de frituras, eu não sou chegada à cozinha.) Minha amiga, que gosta de cozinhar, me falou de sujeito e predicado. Eu não escrevo porque sujeito e predicado, disse. Eu escrevo porque, Rosita!

… dorme, a meu lado, meu passado. Uma garota de vinte, o jeito despojadamente construído, a juventude da pele, o cabelo, as roupas, o que mostram e o que escondem. Aquele casaco de pelo de lhama, eu tinha igual. Era mais colorido e bonito igual. Segue seu rumo serrano o ônibus em movimento e a paisagem lá fora é simples, é a mesma, é pobre, é o Brasiu, e é bonita…

Publicado em Uncategorized | 4 Comentários

Abstrair

Abstrair. Fingir que não se está, estando. Tentar pensar algo que te leve para longe dali, ainda que o corpo não possa ir. Calvário. Respirar, pelo menos, respiro. A posição não é das piores. Estou sentado. Sobre e sob escombros. Já conheço isso, não é novidade. Foi assim que fiquei no buraco do qual saí vivo na primeira vez. A TV me filmou ao sair. Eu fiquei na moda. Depois das calças com buracos, ficar em buraco está na moda. Super, super in. Foi logo depois que os trinta e seis mineiros chilenos saíram da cova. Foi, inclusive, nesta ocasião que decorei o nome do presidente Piñera, do Chile.

Não estou ouvindo vozes ainda, mas sei que eles estão por aí. Eles me perguntarão sobre tudo o que pensei e passei aqui, quando sair. Vou sair. Foi assim da primeira vez. A TV vai me filmar de novo. Pela segunda vez? Quem consegue tal feito duas vezes? Pensar, pensar, preciso salivar um pouco, estou com algo que parece fome. Deve ser fome, estou pensando em comer um pedaço do meu próprio estômago. Um pouco de suco gástrico, para irrigar e… pronto! Estou satisfeito! Piada numa hora dessas? Está bem, e em que outra hora seria mais oportuna?

Fiz esse exercício – imaginação pode ser uma coisa terrível – enquanto aguardava a consulta médica em uma sala pequena, apertada e cheia, com as clientes agüentando, na sala de espera, a modorrice. É muito chato esperar a fio. O lugar mal dá para esticar as pernas ou os braços. Pessoas entram e saem todo o tempo, esbarram em você. Cedi a vez para uma senhora, estou atrasada mesmo. E, ademais, escrevo aqui. Agora, meu medo é – alguém falou medo? – o meu agora é que chegue a minha vez antes que eu termine uma frase. Não seria bom gastar o tempo das pessoas fazendo-as esperar eu ainda guardar minhas coisas para entrar na consulta. Sou a próxima.

Da dita consulta até este parágrafo aqui já se foram pelos menos uns… quinze dias. Não quis jogar fora um bom raciocínio. Continuo embalada em muitas coisas, mas na minha trança cotidiana cabem bem essas mal traçadas linhas. Tudo é uma questão de jeito, de pegar no laço o pensamento andante e fazê-lo aterrissar na… virtualidade contemporânea.

De pé, na fila da azeitona preta, espero o atendente saciar a senhora da frente. Outras duas conversam animadamente, enquanto fazem o mesmo que eu. Outra dona chega por trás, perguntando para mim o que eu já havia perguntado antes: isso aqui é uma fila? Era. Uma fila pequena, diante de um balcão pequeno, de um hortifruti que se fazia pequeno para tamanho volume de gente, na Sexta-feira da Paixão. Atrás do balcão, grande variedade: de tomates secos a biscoitos, passando pelas azeitonas, claro.

De costas para a fila, comecei, de longe, a devorar os tomates, os mamões, as frutas todas de todas as bancas. A um momento, meu olhar, como um raio, vazou os tomates, ultrapassou as bancas e as gentes, levitou. De pés plantados no chão, meu olho voou por um breve e infinito momento. Vejo meu marido entrando no quadro, chegando com o carrinho. Dou-me conta que voei. Comprou a azeitona?, pergunta ele. Ainda não, eu disse, apontando a fila. Mas terminei uma crônica! Um beijo, leitor!

Publicado em Uncategorized | 2 Comentários

O mundo era muito grande

Eu ainda era jovem, quando o Gabeira chegou do exílio na Europa e foi passear de tanga de crochê em Ipanema. (Não era de crochê? Não tem problema). Ele trouxe na bagagem um recado dos verdes alemães naqueles anos em que ninguém ainda se preocupava com essa coisa que, em português, tem um nome estranho e praticamente incompreensível à primeira vista, chamado meio-ambiente. Era preciso começar a prestar mais atenção à natureza e a ter cuidados com uma coisa enorme chamada planeta.

Era uma época sem internet, sem novas mídias, nem essa mídia sócio-digital onde cada homem, um jornal. O mundo era muito grande. Agora, o mundo é pequeno. Ontem, quando eu era jovem, foi exatamente a véspera de hoje. Eu andava com um macacão de brim branco bem gostoso, bem folgado: Nuclear Não. No bolso, no peito, em preto-vermelho-amarelo, as palavras não ditas se liam no símbolo rejeitado desse tipo de energia. Eu era toda engajada, como se dizia.

Quando ando pelas ruas com o olho vago, o pensamento passeia pelas notícias a que presto atenção mesmo sem querer. O mundo parece dizer agora, para mim, que o Gabeira e todos os verdes tinham razão. Têm razão. Têm muita razão. Ando nas ruas com o olho solto, é quando o pensamento me assalta e ouço o que ele me diz, mesmo se não quiser. Juntam-se as frases de um site, com outra que escutei por aí e resumo, com licença, o extremamente complexo no embate dos que querem mais progresso com quem prefere a luz das velas. Chegaremos a elas.

Gritar não adianta nada. O homem do taxi no trânsito de São Paulo quase perde a entrada à direita para a Consolação e precisa pedir licença a três filas de carros e também a um motoqueiro enorme para pegar a rua. Todos cedem. O que é que a gente não consegue com educação?, pergunta ele. Educação é a chave que abre todas as portas, ensina. Se tivesse educação, saúde e segurança, não precisava de mais nada, opina. Não é por falta de saberes que nós, humanos, não avançamos muito para o lado bom da vida.

Alguns problemas existem para não serem resolvidos. É a minha conclusão. Eu nem gosto de rodear esse tema. Mas não há escolha, ele vem de toda parte, inclusive, agora, de dentro de mim. As chuvas que exercem o simples ato de chover, aqui onde eu moro, apavoram pelo mero fato de cair.

É desagradável falar: fiquei velha para sonhar. Mas não para esquecer a força com que eu queria um mundo melhor, justo, humano no seu mais alto nível. Eu achava possível, achava que as palavras… acreditava na força da intenção, na força do verbo… hoje penso apenas que colhemos o que vamos plantando.

Eu não tenho quinze, eu não tenho vinte, não tenho trinta. Para trás, porque pra frente é o mínimo que eu espero. Ouço música alta no carro, mas não é para espantar os pensamentos tristes. É para lembrar que a vida existe, mesmo sob um céu de chumbo como o de hoje de manhã. A vida é fagulha. E, a gente sabe, brota!

Publicado em Uncategorized | 1 Comentário

Antes que se apague o mundo

Espraio, espalho, me estendo sobre amplo e abrangente arco que me leva… até o Japão. Já foi mais longe, o Japão. Anda muito pertinho. Espreme essas letras, antes que te traguem. Há um quê de desatualização aqui que pratico. Correr pra quê? Pra quê mais? É o fim que nos espera mesmo.

Não, não sei sobre que vou escrever. Sei que deve haver algum subject, algum centro focal que me faz mover incessantemente de um site a outro, de um doc ao outro, de uma tarefa à outra, de um compromisso ao outro. O que é que me alinha mesmo? Perdi o fio do pavio que vai ao vento e viaja na moça do tempo na TV. Nada mais a ver.

O jornalismo diário morreu e não é por falta de assunto. É falta de novidade mesmo. As imagens morreram. Ou, melhor, encalharam. As imagens estão encalhadas nos desastres. Não há nada belo, mais, que se possa mostrar. Nada em ordem. Nada organizado. Não é conveniente pauta mostrar belezas naturais que não estejam devastadas pelos desastres cíclicos. Sou muito enganada sobre apocalipses. Só recentemente ouvi comentarem com naturalidade a profecia de que o mundo acabaria em 2012. Isso não era um filme?

Está tudo junto e misturado, dizem na TV. Acho que ninguém registrou esta frase no INPI, porque é possível vê-la em toda parte. Antes, diziam os músicos Titãs: tudo ao mesmo tempo agora. É pouco. Parece pouco, now. Tem que ser agora, sim, mas junto e misturado. Exatamente como o efeito visual das devastações. Não se distingue uma mão do pé de uma cadeira. Tudo parece retalho, entulho, pedaços de pau e pedra, de volta ao começo, sem luz nem água encanada, sem energia nuclear. De volta à idade da pedra.

Romantizo, porque não há outro jeito. Romanceio. De outra frase antiga, bem antiga, de um compositor brasileiro dos tempos difíceis (a dura dita da qual nos livramos), me lembro. A boca tampada com máscara branca, os olhos japoneses avermelhados de lágrimas – a moça não identificada perdeu seus parentes, diz a legenda no jornal. Eu não queria estar atrás daqueles olhos, daquela franja. As lágrimas são de retrato. A dor da gente não se imprime. Já dizia a música, antes, que a dor da gente não sai no jornal.

Na TV, não há mais o que dizer. Não se pode ignorar a notícia, a enorme tragédia, o enorme medo. Não se pode inventar palavras para descrever o óbvio desastre. Não é possível humanizá-lo, dar um toque final, algo como justiça, como um enterro digno, um toque de flor brotando do caos. Os jornalistas estão cansados. Cansados das imagens, cansados das palavras, cansados das tragédias que mudam apenas de endereço.

Quem está vivo, segue vivendo. Quem tem fé, segue rezando. Quem não tem, reza também. Quem rouba, segue roubando. Quem prega, segue pregando. Quem luta, segue lutando. Até que o desastre lhe seja próximo, talvez. Há os que ignoram até onde podem. Há os kamikazes da vez. A todos nós caberá uma papel, no fim.

Quem escreve, segue escrevendo, descobrindo as palavras na escuridão – sem luz, sem velas. Que venham elas, com seu próprio brilho, a iluminar um momento breve. Antes que o mundo se apague.

Publicado em Uncategorized | 3 Comentários