O mundo era muito grande

Eu ainda era jovem, quando o Gabeira chegou do exílio na Europa e foi passear de tanga de crochê em Ipanema. (Não era de crochê? Não tem problema). Ele trouxe na bagagem um recado dos verdes alemães naqueles anos em que ninguém ainda se preocupava com essa coisa que, em português, tem um nome estranho e praticamente incompreensível à primeira vista, chamado meio-ambiente. Era preciso começar a prestar mais atenção à natureza e a ter cuidados com uma coisa enorme chamada planeta.

Era uma época sem internet, sem novas mídias, nem essa mídia sócio-digital onde cada homem, um jornal. O mundo era muito grande. Agora, o mundo é pequeno. Ontem, quando eu era jovem, foi exatamente a véspera de hoje. Eu andava com um macacão de brim branco bem gostoso, bem folgado: Nuclear Não. No bolso, no peito, em preto-vermelho-amarelo, as palavras não ditas se liam no símbolo rejeitado desse tipo de energia. Eu era toda engajada, como se dizia.

Quando ando pelas ruas com o olho vago, o pensamento passeia pelas notícias a que presto atenção mesmo sem querer. O mundo parece dizer agora, para mim, que o Gabeira e todos os verdes tinham razão. Têm razão. Têm muita razão. Ando nas ruas com o olho solto, é quando o pensamento me assalta e ouço o que ele me diz, mesmo se não quiser. Juntam-se as frases de um site, com outra que escutei por aí e resumo, com licença, o extremamente complexo no embate dos que querem mais progresso com quem prefere a luz das velas. Chegaremos a elas.

Gritar não adianta nada. O homem do taxi no trânsito de São Paulo quase perde a entrada à direita para a Consolação e precisa pedir licença a três filas de carros e também a um motoqueiro enorme para pegar a rua. Todos cedem. O que é que a gente não consegue com educação?, pergunta ele. Educação é a chave que abre todas as portas, ensina. Se tivesse educação, saúde e segurança, não precisava de mais nada, opina. Não é por falta de saberes que nós, humanos, não avançamos muito para o lado bom da vida.

Alguns problemas existem para não serem resolvidos. É a minha conclusão. Eu nem gosto de rodear esse tema. Mas não há escolha, ele vem de toda parte, inclusive, agora, de dentro de mim. As chuvas que exercem o simples ato de chover, aqui onde eu moro, apavoram pelo mero fato de cair.

É desagradável falar: fiquei velha para sonhar. Mas não para esquecer a força com que eu queria um mundo melhor, justo, humano no seu mais alto nível. Eu achava possível, achava que as palavras… acreditava na força da intenção, na força do verbo… hoje penso apenas que colhemos o que vamos plantando.

Eu não tenho quinze, eu não tenho vinte, não tenho trinta. Para trás, porque pra frente é o mínimo que eu espero. Ouço música alta no carro, mas não é para espantar os pensamentos tristes. É para lembrar que a vida existe, mesmo sob um céu de chumbo como o de hoje de manhã. A vida é fagulha. E, a gente sabe, brota!

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Antes que se apague o mundo

Espraio, espalho, me estendo sobre amplo e abrangente arco que me leva… até o Japão. Já foi mais longe, o Japão. Anda muito pertinho. Espreme essas letras, antes que te traguem. Há um quê de desatualização aqui que pratico. Correr pra quê? Pra quê mais? É o fim que nos espera mesmo.

Não, não sei sobre que vou escrever. Sei que deve haver algum subject, algum centro focal que me faz mover incessantemente de um site a outro, de um doc ao outro, de uma tarefa à outra, de um compromisso ao outro. O que é que me alinha mesmo? Perdi o fio do pavio que vai ao vento e viaja na moça do tempo na TV. Nada mais a ver.

O jornalismo diário morreu e não é por falta de assunto. É falta de novidade mesmo. As imagens morreram. Ou, melhor, encalharam. As imagens estão encalhadas nos desastres. Não há nada belo, mais, que se possa mostrar. Nada em ordem. Nada organizado. Não é conveniente pauta mostrar belezas naturais que não estejam devastadas pelos desastres cíclicos. Sou muito enganada sobre apocalipses. Só recentemente ouvi comentarem com naturalidade a profecia de que o mundo acabaria em 2012. Isso não era um filme?

Está tudo junto e misturado, dizem na TV. Acho que ninguém registrou esta frase no INPI, porque é possível vê-la em toda parte. Antes, diziam os músicos Titãs: tudo ao mesmo tempo agora. É pouco. Parece pouco, now. Tem que ser agora, sim, mas junto e misturado. Exatamente como o efeito visual das devastações. Não se distingue uma mão do pé de uma cadeira. Tudo parece retalho, entulho, pedaços de pau e pedra, de volta ao começo, sem luz nem água encanada, sem energia nuclear. De volta à idade da pedra.

Romantizo, porque não há outro jeito. Romanceio. De outra frase antiga, bem antiga, de um compositor brasileiro dos tempos difíceis (a dura dita da qual nos livramos), me lembro. A boca tampada com máscara branca, os olhos japoneses avermelhados de lágrimas – a moça não identificada perdeu seus parentes, diz a legenda no jornal. Eu não queria estar atrás daqueles olhos, daquela franja. As lágrimas são de retrato. A dor da gente não se imprime. Já dizia a música, antes, que a dor da gente não sai no jornal.

Na TV, não há mais o que dizer. Não se pode ignorar a notícia, a enorme tragédia, o enorme medo. Não se pode inventar palavras para descrever o óbvio desastre. Não é possível humanizá-lo, dar um toque final, algo como justiça, como um enterro digno, um toque de flor brotando do caos. Os jornalistas estão cansados. Cansados das imagens, cansados das palavras, cansados das tragédias que mudam apenas de endereço.

Quem está vivo, segue vivendo. Quem tem fé, segue rezando. Quem não tem, reza também. Quem rouba, segue roubando. Quem prega, segue pregando. Quem luta, segue lutando. Até que o desastre lhe seja próximo, talvez. Há os que ignoram até onde podem. Há os kamikazes da vez. A todos nós caberá uma papel, no fim.

Quem escreve, segue escrevendo, descobrindo as palavras na escuridão – sem luz, sem velas. Que venham elas, com seu próprio brilho, a iluminar um momento breve. Antes que o mundo se apague.

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Eu sei, é carnaval

Você não consegue organizar bem o pensamento – talvez por não ser preciso – quando sai do seu país, voa algumas horas em um total de mais de 12 de translado e entra na rotina de uma família e de uma casa como se fosse a sua. Tudo é igual: o amor e a alegria das crianças, o céu, o sol, montanhas, muito verde. No pomar da casa, frutas “exóticas” e velhas conhecidas. No jardim do vizinho, uma criança chama o pai em espanhol: Papa! Papa! No mais tudo igual, tudo diferente: hablo de Santiago do Chile, onde vim visitar a filha e as netas do meu marido.

Um pomar pequeno, um passeio breve, frutas “diferentes”! Pés de fruta. Você compra as danadinhas na feira ou no mercado com uma tarjeta: ameixas chilenas. Não faz ideia que elas dão em árvore, não conhece o tamanho da planta, não sabe que aquela coisa ruça sobre a pele roxa da ameixa nem de longe é resto de agrotóxico. É que elas vêm assim mesmo do pé.

Um pé de pêssego, um pessegueiro. Não de pêssegos verdes ou sem gosto, mas daqueles amarelos avermelhados e carnudos. O pé pende, carregado; os frutos sobressaem à árvore. Peras em penca que a dona de casa de estilo alternativo – embora moderna e internacional – transforma em compotas com maestria. Peras, às vezes batem ponto nos mercados. Dão em árvores, como não nos parece.

Há muitas outras: romãs! Na minha casa da infância tinha um pé de romã que quando dava era uma alegria. No pomar, elas abundam avermelhando a casca com equilíbrio. Enfeitam muito os pés, de colorido assim. Há figos no fundo; figueiras encantam. Limão comum e siciliano. Abacateiro, creia. Pequenos abacates já prometem nos galhos em tamanho ainda semelhante aos figos – abacates chilenos não parecem crescer muito mais do que isso. Os damascos já se foram, não conheci o fruto nem o vi. Só conheço o damasco seco mesmo. Os daqui, findos no pé, no pão como como geleia.

Tudo isso belo, tudo isso lindo, tudo isso abunda em pequeno espaço de terra. Todas as árvores dão juntas, parecem parir os frutos em sinfonia. Sinto-me com sorte por ter vindo em março, poderia não ser assim em outra época do ano.

Findo o parágrafo para falar da amendoeira. O fruto é familiar, tal qual o nome da árvore. Não a coisa em si. Encantei-me. Encontram-se amêndoas nas bancas dos mercados ao lado das cascaduras nozes e avelãs. Desconhecemos sua nobre roupagem. O fruto que conhecemos quase nu se forma na casca dura envolta em nobre concha de veludo. O contraste de texturas espanta e acolhe. Olho que vê hoje o fruto tem que aprender a imaginar o que foi ontem. Porque as verdades não nos chegam mais inteiras.

Eu sei, é carnaval.

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Friburgo: a primeira ficha

Sou friburguense, moro em Friburgo e, pela janela, vejo o perfil da pedra do elefante que quase não sofreu nos acontecimentos de janeiro. Eu também não. Por isso, talvez, não tenha escrito aqui nem uma linha no auge da tragédia. É verdade que eu me dei umas pequenas férias e repensava a proposta do conteúdo de minhas crônicas, mas o que se sucedeu não estava nos meus planos. Nem nos planos de quem quer que fosse, óbvio. Demorei a vir escrever, porque tornou-se simplesmente impossível.

Na única semana que tirei para descansar aconteceu o que ninguém, sequer, poderia prever. Eu estava dentro de uma piscina limpa e sob céu azul, quando, na tarde do dia 12 de janeiro, tive notícia dos acontecimentos matinais. As primeiras informações, embora não nos dessem chance de compreensão real dos fatos, já chegaram boas para mim: meus familiares estavam bem, incluindo meu filho, que não estava comigo.

Falei com meus pais no dia seguinte. Com meu filho só consegui comunicação três dias depois – foi o máximo que me ocorreu. Minha casa estava bem; no meu bairro, diziam e repetiam, não aconteceu nada. Era impossível crer. Acompanhei as notícias terríveis primeiro pelo Facebook, depois pelas TVs, mas foi em uma foto na capa do Globo mostrando uma rua inteira, que conheço bem, com carros estacionados sob um metro de lama é que caiu a ficha. A primeira.

Lia notícias recorrentes no Facebook com tal freqüência e sofreguidão que adquiri uma séria tendinite no ombro direito. Nos primeiros dias, fomos veementemente desaconselhados a voltar para casa, sob pena, inclusive, de tirar recursos de quem estava na cidade convivendo com toda sorte de privações. Meus pais, ajudados por meu filho que estava por lá, passaram a noite da tragédia colocando objetos para o alto, com água acima dos joelhos. A casa é enorme, o trabalho foi grande, e eu muito aflita, de longe, acompanhando pelo telefone fixo.

Por uma razão que não se explica, consegui contato regular com meus pais, irmãos e sobrinhos alojados no pequeno apartamento de meu irmão, no centro. Catástrofe. Eu precisava retornar ao trabalho na segunda-feira, ainda não havia falado com meu filho que se desligara dessa família para ajudar o seu próprio pai, cuja casa fica também na beira do rio. Dentro do rio. E ele é ecologista. Mas não é culpa dele. A casa já estava ali. Aquela rua está na margem esquerda do rio, mesmo antes de eu nascer. Sei, porque nasci na esquina.

Entendi que meus pais e irmãos passavam o dia limpando a casa, mesmo sem água, e retornavam ao apartamento para dormir. Dois quartos pequenos, cinco adultos, duas crianças, um bebê, ou seja, muito pouco aperto perto de outros relatos. Pela voz de minha mãe – sozinha com as crianças no apartamento, na manhã de quinta – sinto uma miligrama de outro pavor que tomou conta de muita gente: Alguma coisa de muito grave está acontecendo, porque está todo mundo correndo para trás, carros na contramão estão voltando. Como é que é, mãe? Ligo para minha irmã, Rosa, aflita, em casa, limpando, que me diz chorosa: Não posso falar, vou ter que sair daqui agora, parece que está tendo um arrastão!

Corro ao Facebook, narrações horrorosas de multidão em pânico, uma cidade em pânico correndo pela contramão. Não era nada, soubemos depois, mas ninguém vai querer passar por aquilo de novo. Neste caso, pelo menos, uma escandalosa mentira. A tensa voz de minha mãe no telefone foi o que vivenciei. Não estava com uma criança na praça, não comprava pão em alguma padaria, não retornava cansada e entristecida do trabalho da limpeza sobre a lama de uma rua qualquer.

Cinco dias depois eu voltei ao trabalho no escritório da Firjan no Rio e passei dois dias atendendo aos jornalistas ávidos pela grandeza das trágicas novidades. A imprensa toda na minha terra; eu, fora dela. Quando retornei, uma semana já tinha se passado, mas a Globo ainda estava ali. Subi a serra procurando traços das notícias que engolira. Nada vi, exceto uma rodovia em meia pista ladeando um precipício já em recuperação.

Entrando na cidade, sim, estava ela, a mesma do noticiário: uma insistente poeira amarela em meio aos automóveis públicos e coloridos da defesa civil, da marinha, dos bombeiros, da funerária. A caminho de casa e do trabalho, um lanhado de morro aqui, outro lá. Meu primeiro contato com as coisas que caem – árvores, galhos, fios, postes, barrancos e precipícios – foi a caminho do hospital da Unimed. Uma estrada distante poucos quilômetros do centro da cidade, percorrida, no dia seguinte, por necessidade extrema de consertar meu braço. Eu precisava dele são para obrar no mouse.

Mas não na enxada e na lama, não na borracha d´água, não carregando os móveis destroçados de meus pais. Continuei atendendo jornalistas com intensidade e continuo fazendo isso até hoje, por três semanas seguidas. De sorte, tenho três irmãos, que se apoiaram no trabalho. De sorte, meus pais têm saúde. De sorte, não perdi nenhum amigo. Quanto mais entrei no cotidiano do burgo uma semana após o trauma, mais estarrecida fiquei com uma enorme verdade a meu respeito:

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Friburgo: a segunda ficha

Fui poupada do horror. Só pude vir escrever aqui quando compreendi meu papel na tragédia. A frase emprega mais verdade do que eu ouso carregar. Quando cheguei à cidade, foi junto com o sol. Uns estão mortos, outros não. Umas casas caíram, outras não. Umas ruas ruíram, outras não. Umas pessoas sofreram muito, outras não. Uns estavam na cidade, outros não. Uns estavam nos bairros atingidos, outros não. Uns estavam nos morros, outros não. Uns estavam nos quartos que ruíram, outros não. Uns se apavoraram. Outros, também.

Minha voz não representa o momento, achava. Carreguei uma coisa como se fosse culpa por não ter passado pelo que passou a população e ter sido poupada de estar na cidade. De fora não se enxerga nada mesmo; nada como tudo realmente é. Uma coisa permanentemente pequena, calada e pesada, ficou martelando em mim. Para completar, a tendinite amordaçava fortemente o meu braço restrito a um trabalho que não era o de ajudar a limpar. Andei por aí com minha interrogação em silêncio: por que eu não? Entrei no episódio como o político de Brasilha (yes) que tudo sabe, mas nada, de fato, vê. Não sabe. Não viveu. E comecei a ver que não apenas eu.

Eu não vi corpos se mexendo sobre os escombros, como uma amiga começou a me contar no dia imediatamente seguinte e eu tive que interromper seu relato pelo msn porque não estava pronta para ouvir. Era ainda o dia em que o mundo caiu e faltavam muitas cartas importantes no meu baralho de informação. Eu ficaria fora de controle se soubesse de todas as gravidades antes de falar com os meus. Mesmo assim, duas ou três frases da Cris me acompanharam no início da tensão como um sinal real da temeridade dos acontecimentos.

Desde então, o calor assola e ainda não tinha chovido. Agora, quando choveu brando há três dias, olhei diferente para as letras de Feliz Natal do enfeite ainda mal pendurado no portão de casa. E pensei coisas que pudesse escrever aqui. Vendo as letras balançando, em pleno fevereiro, me lembrei do evento de fim de ano.

Volto aos preparativos de Natal para entender melhor o cair das chuvas. 22 de dezembro de 2010, eu finalizava a arrumação na varanda-garagem transformada em lounge, a fim de receber os amigos para uma happy hour de fim de ano. A decoração de natal serviria também para nossa festa de família e eu pendurei coisas aqui, ali e lá durante todo o dia. Meu marido veio com o gelo e a cerveja. Ajudei, terminamos, e eu, finalmente, fui tomar banho. Eram quatro horas da tarde. Começara a ventar, parece.

Saindo do banheiro, vi que meu marido não entrara em casa. Ventava muito forte e ele estava atrás da enorme tampa de isopor que voara. Quando corri para ajudar com a tampa, ele já me apontava o sofá encharcado na outra ponta da varanda. Onde vão sentar agora os convidados da festa?, pensei meio chorosa e alucinadamente. A chuva de vento castigou a varanda aberta e a mobília; arrastamos as mesas para o centro e, mesmo sem querer, desarrumei a cena. Já chovia muito.

O happy hour marcado para as seis, a chuva chegando após eu pendurar o meu último enfeite, não adiantava mais: Vamos entrar. Tínhamos estacionado os carros na frente da casa, na parte baixa da rua, para dar à festa lugar na garagem. Subi para o segundo andar a fim de, sei lá, não deu para saber, voltei.

As vozes se alteravam lá embaixo, meu nome era chamado, a chuva continuava e a rua…, a rua enchera, porque tem um riachozinho logo ali. Os carros tinham água pelo meio e eu, de banho tomado, caminhei com a água acima dos joelhos para libertá-los. Levei-os à parte alta da rua e voltei. O céu dava voltas e não dizia claro se a chuva iria parar. Enfim: retorna para casa o churrasqueiro-garçom que acabara de chegar, guardada a bebida, cancelada a festa.

Salto para 12 de janeiro. O mundo caiu verdadeiramente aqui. Perto do que aconteceu, eu não fui atingida. Trabalhei muito, de 8h às 9h e de 9h às 8h, mas não ajudei meus pais a limpar a casa de lama e o jardim, mal olhei para os móveis que viraram lixo largados lá fora. Vi uma moça atravessando a rua e falando ao telefone naturalmente: minha família morreu todinha. Sei que é inacreditável, mas era comum ouvir trechos de relatos fortes com ares de normalidade. Quando a água baixou, uma senhora encontrou os corpos da irmã e sua filha abraçadas na porta da cozinha.

Vi que não tinha sofrido nada, que não poderia nunca saber o que aqui se passara ao encontrar com um amigo, uma semana depois. Ele tinha o horror estampado na face. Se eu tivesse presenciado o que vi depois, nem sei por quanto tempo poderia durar o sangue e lama de minhas crônicas. Não foi apenas muito difícil escrever. Eu perdi também a chance do texto inexoravelmente forte, com palavras encharcadas de áspera emoção. Ou seria, talvez, simplesmente como foi: impossível descrever.

Friburgo, 12 de fevereiro de 2011.

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Skidum Skidum

Xiiiiiiii! Em um minuto? São coisas muito díspares. Tive um insight dentro do banheiro, quando abria a bexiga. É tão engraçado estar na mesa bebendo, atravessar uma parede, fechar a porta, olhar as condições higiênicas e abrir a guarda: soltar a água da cerveja. Xiiiiiiii!

Volto pra mesa, o tema é banal. Não me lembro de ter participado de uma discussão sobre a beleza feminina de maneira tão insólita, tanto que não consigo reproduzi-la aqui. Na mesa: cinco mulheres, um fotógrafo de modelos, um jovem, um veterano. O fotógrafo desfila suas teorias com habilidade, impressionando com revelações sobre o jogo de sedução que acontece entre quem está na frente e atrás da lente. Conclusão parcial: Anna Hickman é enorme, linda de morrer e parecia até que dava para preencher toda a sala do restaurante. Mas a Bundchen supera como a falsa magra que tem peitos! É o Pelé da fotografia, ok?

O papo é quente, a mesa é redonda, mas à volta dela uma confraternização acontece e interfere benevolamente variando o rumo da prosa. Quem entra em um presídio, quem sobe em uma favela não volta mais o mesmo. Adriano? Eu adoro o Adriano. Você gosta, porque ele chega na pequena área e resolve. O que é que você está escrevendo aí? Eu tenho um blog, digo, você tem um blog? dizem. Rabisco as palavras no escuro, entre a mesa e o muro, entre a bolsa e o enfeite de centro, as palavras zunem no meio, recolho as que posso e planto aqui.

Elas vêm com um tomara-que-caia, depois ficam assim, com as mãos levantando o vestido pelo busto. Cadê minha bolsa? O bacalhau está maravilhoso. Todo mundo pergunta se ele é ou não. Você sabe? Eu não sei. Eu acho que ele é não-praticante. Amor, hoje eu não volto pra casa antes de ouvir mais música. Bacalhau gostoso, né? E o que é que tem mais de bom? Filé mignon e uma batatinha muito boa.

Skidum, skidum! De onde saiu esse samba?

Impossível continuar anotando frases com o skidum, skidum impressionante que chega ao salão do restaurante. As mesas deixam de ser interessantes e o pessoal ruma pra fora. O ritmo balança a nêga que se abre em sorrisos com o corpo inteiro. Skidum, skidum! Uma falsa loura e magra de calça e camisa chama a atenção na bateria. É dela o som ritmado do tamborim que presenteia a assistência com as ondulações no corpo da passista.

O movimento literalmente ondula na carne da jovem, como se recebesse um santo, um passe e o deixasse sair por uma ponta do corpo, uma quina, um braço. E novamente lhe adentra pelo ombro, tremendo-lhe a cabeça e vazando pelo outro lado. Movimento que entra, preenche, estanca e enlouquece com a paradinha dos ritmistas, retornando ao corpo da moça pelo quadril bem marcado o joelho a coxa. E, reprise.

A assistência circunda o pequeno grupo, se dobra empolgada. Abre alas que o samba é quem passa e agora entra na sala do restaurante onde o sorriso do corpo da morena sob a luz é claramente visível. Prosseguem as evoluções festeiras, o grupo todo se balança entre mesas e pratos e garçons que passam e o cheiro da comida que acabou de ser servida. O samba cai, eu caio no samba, a morena evolui, desde que o samba é samba é assim.

O samba vai até de manhã. Eu é que já vim embora.

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O passado passou ali

O passado passou ali, pelo perfume daqueles portões de ferro. Um cheiro de limo, cheiro molhado. Taiobas crescem, eu sei, porque as conheço. Uma gota brilhante de orvalho dorme na folha. O passado arrancado da casa demolida respira ali, na alta jaboticabeira. Altíssima, a maior de todas, a que jamais vi.

Troncos grandes, fortes, mais altos do que eu, fincados e podados, enfileirados em um dos cantos do quintal enorme, perto da jaboticabeira. Cortados pela metade. Aparados. Troncos fortes que se encontram uns com os outros, se dão as mãos. Caules xifópagos parecem. Troncos engraçados. Viris.

E podados no jardim vazio, cercado, que abunda de verde molhado. Brotos verdes e pequeninos teimam nos caules. Um dia, a fila dos, hoje, troncos teriam sido… arbustos? Tenros arbustos que se planta enfileirados nos jardins e pomares para separar lugares.

O muro é prá lá de belo, é sincero. Número 11, está escrito para quem chega perto. Há muito mais; há pinheiros frondosos, bonitos. Mas o que chama é o retorcido dos galhos e tapete baixo de mato molhado que exala. A tarde finda. O limo teima também em querer comer o muro de pedra e ferro que circunda o quarteirão, mas o embeleza no mesmo tanto que envelhece suas feições.

Escrevo esta fotografia afastada e, na calçada, passam outros passados de senhoras e senhores. Passam as crianças e seus futuros – como eu com o meu, que data de outra época. Hoje volto ao lugar, a olhar a falta da casa rosada e a bela lembrança que o cheiro no portão emana.

A casa foi ao chão há tantos anos, eu era ainda uma criança. Sobrou-lhe um arremedo mínimo no canto, no fundo, pra lá das árvores e do mato, quase como se não existisse, não fosse a cor. É a casa da família de um fotógrafo. Dos bons. Os donos, de bom gosto, conservaram nas paredes da ínfima moradia o rosa que não é moderno nem antigo. É rosa apenas, daquele tipo invariável que se tinha antigamente. A porta com jeito de fazenda é verde folha, assim como o umbral da janela. Verde e rosa, verde e rosa.

Bananeiras, avisto! Bananeiras altas, claro. O cheiro indescritível retorna. O encanto da cena muda. O tempo parado entre as grades atrai não apenas a mim, mas quem passa leve por perto. Tudo aquilo ali exala forte perfume: é verde, é velho, é ferro, é bosta, é chuva. Não há como descrever a beleza do mato.

Tem cheiro de bosta, de bicho, até, eu diria, enquanto os carros passam com suas rodas e motores sobre os paralelepípedos da rua. Generoso quarteirão deixa-se avistar inteiro pelas grades. O muro, o jardim, o ferro puxam também os olhos de um casal que passa e sonha e afirma: o local é ótimo!

Voltarei em outro fim de tarde, em fim de chuva, para fotografar a casa do fotógrafo e esta cena muda que pulsa serenamente. Hoje só trouxe a caneta!

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