Imaginando palavras*

Dia das Mães, meu filho me concede uma visita e a honra de entrar no meu Blog. Depois que eu insisto. Lê a crônica do Mosteiro em um tempo que, eu achei, dava para ler duas. Mas se levanta e vem me abraçar. Você escreve sobre o que você quer, né?, ele diz, com o jeitão adolescente e tom levemente irônico. Eu rio. Ele completa, quase como uma suave e sincera concessão: eu gosto do jeito que você escreve.

Claro que eu escrevo sobre o que eu quero, isso é um blog! Respondi assim. Rimos mais um pouco, depois vou dormir. Olhos fechados, já com a cabeça no travesseiro há algum tempo, sinto meu sorriso constante espalhado pelo rosto. Não estou dormindo. A cabeça voa leve na frase e, especialmente, no tom cantado da fala do meu filho. Sobre o que você quer, né? Tônica no verbo como um mergulho. Aquilo ecoa em mim de maneira clara.

Levanto-me da cama. De tanto pensar alegremente, meu pensamento foi dar no passado, evocado pelo presente. Sei que deixei um lápis na cabeceira, mas papel, não. Tateio no escuro, no encalço, de pé para laçar os pensamentos que, curiosamente, me faziam sorrir e que ainda não tinham me deixado dormir. As frases permaneciam comigo, acesas. Vinham e voltavam. Encadeadas. Decantadas pelo ato de viver.

Alcancei a caderneta vermelha no quarto ao lado e voltei ao escuro, para não acordar ninguém, muito menos a minha consciência. Qualquer escritor maduro sabe que o sono deveria ficar para depois. Que o correto seria ir atrás daquela ponta de iceberg ali mesmo, não importa a hora, e escrever. Tudo de um jorro, mas não. Anotei as primeiras frases, as primeiras ideias e achei que assim ficaria em paz. Mas não.

De qualquer forma, ainda enquanto releio o que escrevi até aqui, há um sorriso em qualquer lugar. Que sequer combina com a história que vou contar. Certa vez fui jantar com o diretor de um jornal em que já trabalhei. Eu queria ser cronista. Na época daquele jantar, o jornal não tinha crônicas de nenhuma espécie. Ou, pelo menos, da espécie que eu entendia que fossem crônicas. Escrevi algumas e enviei para ele. Em troca, pedia liberdade total sobre o tema a escrever. Eu era muito jovem. Ele não entendia que a liberdade que eu pedia era “conceitualmente total”. Eu, com toda certeza, também não soube explicar.

Ele me levou a Ipanema para jantar. Havia umas três espécies de capangas que ficaram por perto. Percebi somente na saída. Eu era muito jovem. Ele pediu um prato. Eu pedi sopa. Estraguei o jantar com a minha liberdade. Não posso pedir o que eu quiser? A um sinal, o grupo bateu em retirada. Nunca mais espaço pra mim no jornal. Acho que voltei de táxi. Pelo menos acabara ali mesmo, no jantar. Eu era muito jovem.

Essa a lembrança que, inadvertidamente, me fez rir. Pode ter sido a conexão de uma época em que eu sonhava em ser cronista e nem pensava em ser mãe, com esta agora em que sou mãe e refaço meu caminho de cronista. Pode ter sido isso, somado à melodia irreproduzível do pedaço de frase desafiante: “sobre o que você quer, né?”. Como se a ênfase no verbo servisse de trampolim para lançar o tema no ar. Ainda não sei que sorriso é este.

Posso escrever sobre o que eu quiser? Foi meu pedido incômodo no jantar. O prato de sopa era minha liberdade. Eu era muito jovem para saber explicar que há de haver, pelo menos, um cheiro qualquer da ilusória liberdade total para a (minha) escrita nascer. O resto é letra de forma. A frase precisa de liberdade para nascer. É dali que ela brota. De um certo nada. De um vasto tudo. De onde vêm as vozes. De onde nascem os sentimentos. Sempre persigo a ocasião de cada um desses nascimentos, porque no alvorecer o sentimento é mais puro.

Até o ato de imaginar palavras é um ato improvável. Bato palmas para os neurologistas, eles devem saber onde fica esse tal de pensamento. Escrevo, escrevo e continuo sorrindo. Gosto de ver o texto brotando do que parece silêncio. Apenas parece. Confesso que escrevi e não descobri a razão do sorriso, só sei que escrever é reescrever. E reescrever é ponderar. Aí, sim: adeus, liberdade!

* Obrigada Gian Calvi* por me ajudar a titular e a ilustrar esta crônica (www.giancalvi.com.br)

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Sobre Marcia Savino

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