Oitenta anos

Ao fim e ao cabo, somos somente eu e as palavras que nascem. Não tem sinal vermelho, não tem faixa amarela. As palavras jorram de uma fonte contínua, entremeada apenas pelos atos cotidianos. Foi de um momento desses que colhi tais pensamentos.

Um senhor muito idoso, ativo, bastante poderoso, e que fala muito bem, fez as pessoas pensarem. Seu tom é dramático, tem ênfases precisas e modulação na altura da voz, de olho na módica assistência. Não o inibe o microfone. Na mesa estende o chapéu como uma marca que beira a inocência, sublinhando a fala ou a fotografia do momento. A pele é clara e o rosto é comprido.

Ele, quando fala, faz pensar – o que é uma verdadeira raridade em se tratando de políticos, especialmente no interior. Quando fala, este senhor magro ocupa a totalidade da arena, não deixa espaços. Apóia sua performance, visivelmente, no peso dos anos sobre os ombros, que faz parecer leve, tamanha a sua energia. Chega a ser ríspido, mas a idade e muitas outras coisas – que a audiência sabe e concede – lhe permite.

Começa sempre contando uma história. Traz a história para o discurso, vem lá de trás seu raciocínio. Só por aí, já sai na frente. E não importa se terá que realinhar fatos – somar, subtrair, multiplicar – para sustentar seus argumentos. Não é o que está em jogo. Então, começa contando uma história que ninguém se lembra, que muitos não sabem que existia, que outros irão repetir. Ilumina a palavra e tece a trama. Gesticula, argumenta, cativa a audiência de iguais e súditos que, ali, não lhe chegam aos pés. Em terra de cego, quem tem um olho é rei, não é assim? Pois ele não apenas reina, como afirma claramente para a muda assistência: Aqui, o rei sou eu.

E sonha. Sonha alto e em voz alta. E do alto dos seus oitenta, impressiona. Dá-se o direito de enlouquecer no poder. Um pouco de louco, um quê de criança, um sonhador, um fazedor. Abstraio o político, observo o homem. Esqueço o passado, concentro-me no velhinho que, ali, é alguém de futuro. Transforma-se em menino. Tem, aliás, olhos de menino que enxerga longe. São olhos muito abertos, muito vivos, olhos de quem já viu tudo e que agora se atiçam para enxergar o futuro. Do alto, onde está, quer ver ao longe. Amplia e alarga a visão por sobre as montanhas. Não importa: “quanto é melhor quando há bruma e e esperar por Dom Sebastião, quer ele venha ou não”*.

Então aquele senhor de mais de oitenta anos, que viveu muito e pode ter influenciado a vida de dezenas de milhares de pessoas para o bem e para o mal, vaticina. Categórico, canta para a audiência que não está de costas para a tecnologia: só não tenho tempo de descobrir todas as funções do meu celular. Talvez não tenha tempo mesmo. Frase dele para finalizar: o século XX foi o século das coisas impossíveis, o século XXI será o das inimagináveis. Inimagináveis, repetiu.

***

Um jovem homem, passando por uma piscina em domingo de sol, cumprimenta um outro senhor que acabou de fazer oitenta. Vida boa, hein?, diz. Ao que o outro responde: Pena que está acabando.

***


Meus cumprimentos ao Sr. Heródoto e meu abraço ao Sr. Laércio.

* Verso de Fernando Pessoa no poema “Liberdade”.

Anúncios

Sobre Marcia Savino

Oi, seja bem vindo/a e passeie por esta literatura de rápida leitura! Indique para os amigos e... volte sempre!
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s