Cinco minutos no mosteiro

Não, eu não queria entrar. Não quero ir ao Mosteiro de São Bento, eu quero ir para casa, eu preciso escrever. Já tinha vivido o bastante para o download das ideias fazer algum sentido aqui. Julgava que já era hora de voltar, porque, no fundo, tudo se resume a me afastar daqui e voltar para cá. Para as letras e as palavras que elas formam.

O que aconteceu depois mostrou-me que não era hora ainda. Como o carro já tinha ultrapassado o portão, tratei de achar que talvez desse para fotografar a baía lá de cima. De tal lugar, até hoje, só conhecia a fachada. E a fama. Subimos de carro, no domingo ensolarado, a pista que leva ao Mosteiro, e um pátio belíssimo coberto de grandes pedras e cercado por fartas árvores exibiu-se antes da igreja. Meu olhar se espraiou pelas pedras feito lagartixa e esqueceu de buscar o mar.

A igreja me chocou um pouco pelo excesso de detalhados ornamentos que me recuso a descrever. Mas na varanda, sentado a um canto, um velho frade, todo paramentado, parecia ouvir as confissões de um rapaz. Os trajes se contrastavam. O velho monge em preto óbvio, da cabeça aos pés. O jovem homem em camiseta simples, mas de forte tom alaranjado. Eu os vi assim que cheguei, pois compunham o quadro, posicionados ali adiante. Pensei em fotografar, mas não ia atrapalhar a confissão.

Então empunhei a máquina para a igreja, mesmo sabendo que sou péssima fotógrafa de igrejas. Elas são sempre muito grandes e não cabem no meu quadro de amadora. Elas são sempre muito escuras – e aquela é especialmente escura, porque parece não haver uma única paredinha sem seus encaracolados entalhes. Fotografei o chão e suas composições sem muita fé. E voltamos para o carro que ocupava o pátio, assim como alguns outros carros, razão suficiente também para eu não fotografar o pátio.

Baixei o vidro e, de longe, dei adeus ao monge. Ele respondeu. Ele respondeu?! Fui intimada pelo meu acompanhante a descer do carro para cumprimentá-lo de perto, a enorme contragosto, porque essa atitude confronta-se terminantemente com a minha minhoquice. Ainda afastada, lancei um “boa tarde”, meu bordão de aproximação. Ele e o rapaz, que tinham cara de interrogação, relaxaram. Pedi licença para a fotografia, achando que seria capaz de traduzir com a máquina o impulso que tive quando os vi sentados lá adiante no pátio.

Conversamos. Um diálogo partido. Um senhor muito, muito idoso. Com as bochechas magras pendendo para baixo, uma de cada lado. Os olhos azuis, de um azul que me fez pensar se essa cor sempre estivera ali. Seu nome é Clemente. Clemente Isnard?, eu pergunto. Ele fora bispo na minha cidade! Durante 30 anos, mas depois, por causa da idade, tive que deixar, disse-me. Misto de desolo e conformação, sinto. Era um bispo muito, muito querido. Depois fui auxiliar em Duque de Caxias, na baixada fluminense. Auxiliar, repetiu.

Deu-me o endereço para que enviasse as fotos. Mal sabe ele que ficaram péssimas, não sirvo também para fotografar monges velhinhos de preto com amigo de camiseta alaranjada do lado. Eu quis saber o que – com o perdão da expressão – o que diabos ele fazia ali, naqueles míseros minutos em que subimos de carro para uma visita ao Mosteiro depois de já termos visitado quatro ou cinco exposições no centro do Rio. Um táxi parou para buscá-lo e eu entendi. Estavam indo para a Lagoa, onde se hospeda quando vem de Recife. Quinze dias em Recife, quinze dias no Rio, me explica o amigo.

Mas e ali, no Mosteiro, o que viera fazer? Nem perguntei. Fizemos o caminho de volta com a máquina cheia de fotos lambidas e o bispo na engrenagem da minha consciência.

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Sobre Marcia Savino

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