Comece bem o seu dia

Comece bem o seu dia. É a melhor maneira de fazê-lo terminar bem. Comece bem sua crônica. É a única maneira de ela acabar bem. Já que, como a vida e as novelas, tudo finda, o melhor é terminar bem. Mas não pode terminar bem o que nem bem começou.

Óbvio. A vida tem uns principiozinhos básicos, como o de tomar café da manhã. Por oposição, você pode, também, não tomar o café da manhã, mas ele está ali plantado bem no início do dia, quer você passe por ele ou não. Há exceções, mas o que seriam das regras, se não fossem elas? Também, por oposição, se completam.

De uma semana para outra penso no que vou escrever e, às vezes, não dou em nada. Por oposição, mais uma vez, dou em tudo. Dar em tudo significa que um só tema não me impressionou – como acontece, às vezes, aqui mesmo, neste espaço. Então começo a olhar para os lados sem procurar nada, porque ando vendo tudo. O que significa que um tema se encosta no outro e soma, dando um resultado no conjunto que:

Escrevo muito bem sobre nada, digo, muito confortavelmente. Mas desde que fui convencida de que os leitores preferem uma certa coisa chamada assunto ou outra certa coisa chamada tema, ou ainda uma terceira coisa chamada história, deixei de lado este não-tema tão delicioso. Estou um pouco enferrujada. Adoro padarias para o café da manhã. O que mais gosto em padarias é o cheiro. O cheiro é o raro.

Hoje, as padarias tendem para o que há de mais moderno. São ótimas! Mas felizmente há aquelas que resistem às transformações que seqüestram o cheiro antigo e não o devolvem mais. Entrei para comprar pão dia desses, encostei no balcão e disse, como antigamente: Moço! Tudo em volta era ultrapassado, do lay-out à cor. O pão, comum, desses que a gente gosta, francês. Aproximei meu nariz enquanto esperava. Quase fui sugada lá para dentro, mas me contive; corria o risco de ficar colada ali, cheirando o ar.

Com vergonha, cheirei uma vez só e fundo. E depois quis voltar. E lamentei não chegar tranquila pela outra ponta do balcão, pedir um cafezinho e passar a vida cheirando aquele ar. Porque não era só o cheiro do pão fresco. Misturavam-se também o cheiro das latas empilhadas no alto da prateleira, dos bolos nos tabuleiros no balcão, do café da manhã de sábado; o cheiro das roupas nas barrigas encostadas na fórmica azul, o cheiro da amizade dos que se revezavam no caixa, o cheiro do dinheiro miúdo trocado por moedas, o perfume dos sorrisos dos que se esbarravam no espaço pequeno do lado de dentro.

Tudo isso junto numa cafungada? E não é assim a vida? Num olhar, uma eternidade. Em outro, poço de banalidade. Para escrever bem, tem que puxar o fio do novelo por uma ponta; mas, às vezes, essa ponta só aparece quando já estamos perto do fim. Não é assim a vida? Acontece…

* Devo o título acima a uma frase que li numa parede de manhã; devo à frase – e à sua autora – a sorte de ter escrito esta crônica ontem. Porque se fosse hoje, sei não. É preciso começar bem o dia.

Anúncios

Sobre Marcia Savino

Oi, seja bem vindo/a e passeie por esta literatura de rápida leitura! Indique para os amigos e... volte sempre!
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para Comece bem o seu dia

  1. Amelia Maria Velho Pereira dos Sanyos disse:

    Como você mesma diz”escrevo muito bem sobre nada”, mas como você escreve bem tudo!!!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s