Tocata and Fuga

Resolvo pesquisar uma palavra na internet. Uma palavra só. Que ouvi duas vezes só, na vida. Dois médicos a disseram. Um deles foi meu pai, que a disse neste domingo. A palavra é grande e tem um ritmo interessante, a despeito de ser um comentário sobre o meu comportamento. Dois cliques e está ali, muito brevemente, uma descrição clara. Nenhum problema, exceto pelo fato de que estou sendo medicada com um estabilizante químico de baixa gramatura (esqueci agora o nome certo que se usa, prefiro usar o nome errado mesmo, você está me entendendo, eu sei). Tal coisa já me faz bem há mais de seis meses. Então, não é um problema, também não é uma rima, mas é uma solução muito benvinda.

Um clique leva a outro, assim como uma palavra leva à outra e está ali, no parágrafo da descrição na internet, uma expressão que eu não esperava encontrar: fuga de idéias. Hein?! Isso foi agora há pouco. A primeira imagem imediata que me veio foi de algo ligado à música. Tocata em fuga*, por que não? Então leio a nova descrição psíquica de um comportamento associado ao meu tipo de ser humano e quase caio para trás.

Não caí para trás, caí dentro, dentro do texto que agora escrevo antes do café. Quase fui desmascarada pela descrição! Então tudo que eu acho talento e capacidade está ali sumariamente descrito como característica de certo padrão de comportamento psíquico? Minha curiosidade foi imediata; e claro que eu sabia que aquilo tinha a ver comigo, não tinha a ver com música.

Vou tomar meu café e volto, porque o dia precisa começar. Passei novamente na tal página da internet; recuso-me a repetir seu conteúdo. Seria como se, de repente, no meio do ato fabuloso, o mágico revelasse o segredo de um lance. Exatamente como acontece agora nas tvs, em que o prazer do público é justamente descobrir o truque. Porque há um truque, sempre há – e já não nos contentamos mais somente com o mistério.

Dito isso, recorro novamente à descrição para continuar. Estão lá, em uma única frase, alguns dos procedimentos mentais que me são mais caros. Se copiar a frase aqui, encerro a crônica sem poesia – o que não faria jamais! Crê, leitor, que até o processo de associação aleatória de ideias que quase sempre termina em rima está descrito ali – um caso exemplar de síntese, de redução bioquímica.

Eu não estaria aqui compartilhando esses pensamentos vãos, se não tivesse, pela ordem: 1. que cumprir o compromisso de escrever uma crônica por semana; 2. que encontrar um tema para conduzir minha pena do início ao fim; 3. que aceitar que há muito mais coisas entre um cronista e seu tema ou a falta dele do que pode supor a vã filosofia; 4. se não tivesse mencionado, em (ana)crônica anterior aqui mesmo, meu processo de idéias desembestadas. E chega porque, ao que parece, até a vã filosofia pode ser apenas um processo bioquímico.

A crônica vai para o forno, porque, enquanto isso, o dia arde. Fui salva da ignorância pela Wikipédia: “Tocata and Fuga” ou, em português, “Tocata e Fuga”. Qualquer uma, de J. S. Bach, em ré menor. Fica declarado neste parágrafo que Tocata em Fuga não existe, sendo apenas produto de um cérebro taquipsíquico.

E para quem se importa com detalhes menos relevantes como eu: Tocata “são composições para teclado nas quais uma das mãos e depois a outra realizam corridas virtuosísticas e brilhantes passagens em cascata, contra um acompanhamento de acordes na outra mão”. Fuga, além das associações que popularmente fazemos, é “como se o compositor estivesse fugindo e perseguindo o tema”. E, mais importante: “perseguindo todas as pequenas partes do tema espalhadas pela música, com cada uma de suas diversas variações”.

Persiga comigo, leitor, este blog que singramos na internet, porque nossa viagem está apenas começando…

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Sobre Marcia Savino

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