Claro escuro

Fui no Tororó, beber água, e não achei. Eu devia ter uns nove anos. Ou, talvez, mais. Hoje descubro que as igrejas me fazem olhar para o chão. Gosto muito do chão das igrejas, são mais simples de entender.

Estive, ontem, em uma. A nesga de tempo vago antes da cerimônia me fez pensar coisas absolutamente normais, mas que, usualmente, não se pensa dentro de uma igreja. Olhei para o chão. Vou lá fotografar aquele chão, porque não me lembro como era. Naqueles minutos de tempo vago, aguardando a noiva e os convidados a preencher os muitos lugares vazios, pensei no mistério – não, da fé, mas da vida.

Eu devia ter uns nove anos. Mais um pouco, talvez. Era noite e meus pais tinham saído para ir ao cinema. Eu acordei, fui ao banheiro e voltei. Na volta percebi que eles ainda não haviam chegado. E comecei a pensar. Comecei a pensar coisas que a gente pensa que criança não pensa, mas nunca é exatamente assim.

Saí do banheiro e, ao perceber a ausência de meus pais, um negro véu caiu sobre mim. A luz do banheiro ficava sempre acesa, mas eu estava no corredor. Encostei-me na parede do corredor escuro, enquanto os pensamentos se davam as mãos, frase por frase. A consciência me abateu ao ponto que escorreguei o corpo pela parede e fui sentar no chão estreito. Curioso me lembrar disso.

Gostaria, mas não creio que seja capaz de reproduzir aqui a lógica que me derrubou. Eu estava na igreja ontem e o lapso de tempo abriu uma porta na memória. Um jato de luz veio lá de dentro e a porta se fechou, não sem que eu pudesse ver a menininha abismada em indesejáveis conclusões.

Então, quer dizer que é assim? Que tudo acaba e um dia tem fim? Que o mundo não termina em meus pais? Que vai ali adiante? E que adiante é o abismo? Naquela época se davam cartões quando a pessoa morria e minha mãe teve, por muito tempo, um desses cartões no banheiro, ao retornar de um velório. Eu a cobria de perguntas.

As respostas vieram no meio da noite, no escuro, na ausência, como um clarão. Agora não tinha mais volta. Eu estava diante do mistério da vida, não havia mais como ignorá-lo. Então, enquanto esperava a noiva e o casamento – esse, outro mistério – espantei-me comigo mesma. Tão marcante descoberta, nunca mais esqueci. Levantei a cabeça e na falta do que ver, já que a noiva ainda não chegara, nem o noivo a esperava no altar, pus meus olhos em Jesus.

Olhei para o meu marido ao lado e perguntei: Você acha que existiu na terra um homem como este que viveu assim? Ele respondeu de pronto: Não. E depois disse: Deve ter existido um homem assim, mas que foi usado e manipulado depois pela política, pela instituição. Achei pertinente. Uma resposta sóbria a uma pergunta idem. Marcado para as seis, o casamento começou em seguida.

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Sobre Marcia Savino

Oi, seja bem vindo/a e passeie por esta literatura de rápida leitura! Indique para os amigos e... volte sempre!
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Uma resposta para Claro escuro

  1. Amelia Maria Velho Pereira dos Sanyos disse:

    Seu pensamento voa , como voa a sua caneta e no final veja no que dá.
    Muito bom!…
    Beijos

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