Pé no pedal, parado, dia nublado

Assuntos demais, já disse alguém. O branco do papel é como o branco do céu. Não inspira nada, a princípio, um dia nublado. No entanto, está ali, disponível para ser desvirginado. Ninguém se nega a viver um dia nublado, mas pode acontecer de, às vezes, ele demorar um pouco mais a começar.

O que é bom também, por um lado, começar devagar. Desligar o automático assim que se abre a janela. Deixar os olhos pousarem sobre a tela. Deixar os dedos catarem o milho das letras. Pra fazer mingau, quero dizer, sentido. (Espaço.) Fresta generosa entre os atos da vida pouco nos permitimos. Ou fazemos muito e fazemos em sequência e em ritmo frenético e alucinado para não parar porque há muito mais ainda a fazer nesta hora neste dia nesta vida. Ou não fazemos nada. Pouco fazemos com ritmo e intervalos que permitam respirar.

Chegamos a ter medo do ar. (Cegos.) Coisas que se fazem com ar não parecem passíveis de serem feitas. (Ignorantes.) Se tem ar, é porque diminuímos o ritmo; se diminuímos o ritmo, podemos parar; se pararmos, podemos cair. Como quem anda de bicicleta. Cadência sim, se for acelerada. A isto, atualmente, damos o nome de viver.

Que o brilho do branco céu nos inspire! (Respire.) O tempo que levamos entre uma coisa e outra não deveria ser nada. E quando esse branco – uma nesga, que seja – aparece, tememos a paralisia. A continuidade pode ser feita também com intervalos. O colorido, entremeado de brancos, reforça-se. Arejar é dar cadência. É o que faço aqui, enquanto a história e seus fatos encadeados não vêm. Encadeados, veja bem.

Respiro. Inspiro fundo e espreguiço os braços abrindo asas como quem vai voar. Já voo. Voo alto e voo fundo. Vou aonde sempre quis chegar. Aqui. Bandeirante, exploro. Desbravo o papel até às margens e as entrelinhas. Construindo o traço, laço o poema. E me encanto pelo branco, me encontro. E o abraço. Estendo meus braços para além da pena. E a palavra acena com o sentido final, como um simples ponto em um tricô bonito. A cena se amplia e os dedos catam milho conferindo ao fato o desejo de tocar o outro lado de todo texto. Leitor.

Enquanto não vem a história que curiosamente adia sua chegada a cada parágrafo, deleito-me no branco. O ar é uma brisa tênue que entra e sai. Desculpe, leitor, se roubo de você mais do que cinco minutos. (Permita-se.) Também não sei aonde vai dar esta prosa. Vou singrando o espaço, abraço o desafio. Corro o risco de me perder, de te perder, vou voltar.

Mas fui!

Pé no pedal, dia nublado. Hora de pedalar a bicicleta. Aliás, se a história tivesse vindo aqui hoje, seria assim: deixei a crônica para escrever na última hora e diversas outros compromissos me esperam. Nesta hora única, descartei as obviedades. Obrigada pela companhia.

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Sobre Marcia Savino

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2 respostas para Pé no pedal, parado, dia nublado

  1. roberto boetger disse:

    Essa é uma cronica puro-sangue, do mais primitivo, primal, primeiro DNA das letras da Marcia Savino!

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  2. danuzza disse:

    menina! gosto dos seu textos. adoro.
    este em especial… me identifiquei!
    sua visão das coisas é incrível.
    queria eu escrever assim.

    beijão!

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