Meia hora inteira

Por mais que esteja vazio o escritório, por mais que meu celular tenha cismado de arriar a bateria, por mais que não tenha à mão um computador ou internet, por mais que eu não tenha na bolsa nada nada para ler, por mais que o escritório que visito tenha o chão largo e branco, por mais que exista agora meia hora inteirinha pra mim, por mais que só faça esperar, por mais que a poltrona seja confortável, que haja silêncio e que a caneta seja boa, somente tudo isso não seria argumento para escrever uma crônica.

Aqui onde estou – visitando uma fábrica enorme – é o lugar mais improvável em que pensaria em escrever, mas o improvável e os mais de vinte minutos inteirinhos que me separam da hora do almoço no bandejão são argumentos poderosos demais para fazer nascer um texto.

Nada para fazer. Não tem ninguém aqui não? Entra um funcionário da casa e me faz a pergunta diante da grande sala branca de bancadas e cadeiras azuis e vazias. Dois rapazes paulistas com forte sotaque conversam em pé, adiante, mas acho que ali eles contam como “ninguém”. Falam sobre algo cujo tema parece ser gás, energia, processo produtivo, e encostam-se no vidro da janela que dá para a produção ao mesmo tempo em que eu, finalmente, compreendo: todos deixaram o escritório. Fora-me avisado apenas que precisava esperar, não os vi sair.

Mesmo, então, que eu esteja com muito sono para ficar sem fazer nada – porque ontem visitei outra fábrica e dormi pouco, mesmo que meus joelhos também estejam ardendo de sono, mesmo que entre gente intermitentemente na sala branca, mesmo que os paulistas falem palavras audíveis como “ar”, mesmo que o branco do branco reflita nos meus olhos, mesmo que meus olhos turvem, mesmo que um funcionário passe e me sorria, mesmo assim, eu escrevo aqui.

É mesmo com os olhos turvos que mais gosto de escrever. Nada a fazer a não ser: isto. Que feliz, faço. Mas disfarço. Não posso parecer estar escrevendo na caderneta algo como uma crônica, porque só gente louca faria isso na espera de uma fábrica, zonza de sono, depois de escutar, escutar e escutar histórias de fábricas.

Emprenharam-me o ouvido. Minha vontade de dormir é de verdade. Mas, o compromisso, o trabalho, em primeiro lugar. O amor e a família no mesmo páreo. E quando eles não estão, então, o quê? Sobram-me dez minutos de vida antes do meio-dia. A fábrica está em interna auditoria e eu viajei até aqui para ouvir.

A palavra do dia é: fábrica, fábrica, fábrica. Não se vive sem elas. Eu mesma preciso desta caneta leve de escrita fina que desliza no papel para vencer o sono. Eu e a menina travessa que resiste e insiste em habitar em mim; a moleca que puxa a caneta e rabisca letras na caderneta, seguindo as folhas de trás para frente.

Está quase no fim, minha visita. Mas enquanto não termina, desejo a hora em que ela terá ficado para trás como um passo dado, um dever cumprido. Sorrio para a moça que passa. Se não escrevesse agora, estaria segurando a cabeça; segurando o queixo; colocando a mão sobre a boca de um jeito, de outro jeito; olharia um pouco, olharia mais, olharia muito o branco da sala, as janelas, os murais brancos, os sapatos dos paulistas e da menina que passa e agora conversa com eles sobre o contra-fluxo, o trânsito e o aeroporto Santos Dumont. De tanto olhar, os olhos turvariam e eu desejaria, de duas, uma: caneta ou cama.

Se tivesse mesmo algo para ler, teria sono. Escrever não dá sono quando a caneta escorrega assim vertendo a tinta como se fosse sangue. Sim, é meu sangue que sai. Escrevendo crônicas, tornei-me doadora. Eu dormiria neste ermo lugar onde a fábrica fica. Já passa do meio-dia e ninguém veio ainda nos buscar para nada. A espera é, sempre, uma coisa infinda.

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Sobre Marcia Savino

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Uma resposta para Meia hora inteira

  1. Amelia Maria Velho Pereira dos Santos disse:

    É Marcinha, mas nós que amamos escrever, e que escrevemos em qualquer lugar, sabemos como ninguém que não há sono que não se espante quando se escreve tão bem como você, até com sono. Parabéns!
    Beijinho,
    Amelia Maria

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