Else e a reforma

Não foi apenas a falta de tempo que me afastou daqui e interrompeu o ritmo semanal de postagem das crônicas. É, principalmente, uma questão de espaço. Agora há pouco, lá embaixo, vendo tv no pedaço de sofá que me sobrou para uso, dei de cara com um pensamento cristalino. Finalmente, tal pensamento durou mais do que um breve átimo e me trouxe aqui.

Nesta casa do jeito que está, mal consigo juntar o A com o B. Eu nem sei onde se encontram as letras, onde foi que guardei aquela ideia, nem onde coloquei uma palavra. Duas ou três vezes por dia, quando estou no andar de baixo, preciso do sapato – ou da escova de dentes – que está lá em cima. Ou foi o chinelo que ficou lá embaixo quando preciso dele em cima. Para transitar, atravesso montanhas de pó, ferramentas imprevistas e uma bandeja de tinta estacionada no meio do caminho. Embora se possa viver vários meses desta maneira – eu sou uma prova viva – é praticamente impossível que uma frase sobreviva nesta dinâmica. Como em uma evolução natural, ela se recusa a nascer.

O ambiente a minha volta vem passando por uma crescente – cuidado para não tropeçar na próxima palavra – complexidade. A princípio, meu local de trabalho foi desmontado junto com o quarto de dormir. As janelas e portas de toda a casa foram sendo retiradas para raspagem. Elas iam deixando a casa pela manhã para voltar à noite, uma a após a outra, até que todas tivessem feito o percurso. Quase sempre, ao retornarem aos seus lugares passaram a abrir e fechar de forma diferente. Umas rangendo, outras dando trancos, outras, simplesmente, não casando mais a tranca com o buraco. Nada com que não se possa conviver ou, pelo menos, corrigir.

O que era para ser uma pintura da casa toda, aos poucos foi se restringindo aos dois cômodos já mencionados e às portas e janelas – já que não havia mais jeito mesmo. E incluída a escada, porque ninguém agüentava mais aquele tom negro da madeira. Entenda, leitor, por favor, que este “negro” na frase anterior leva apenas uma gota de exagero. Enfim, se o corrimão tinha que ser clareado e em casa tínhamos um pintor, era só casar uma coisa com a outra, estendendo a ação ao bar de madeira preta que ocupava o vão.

Relutei muitas vezes em trazer aqui as dificuldades de ter as roupas permanentemente fora do armário dentro da própria casa. Não saberia driblar o ódio que tantas vezes tenho do pintor / marceneiro / pedreiro / faz tudo / jovem / louco / criança / esforçado / embromador / sinto vergonha de falar assim de alguém com tantos atributos / bagunceiro. Este, por si só, mereceria uma crônica a parte, caso eu fosse capaz de fazê-la com algum toque de humor.

Mas, este rapaz, infelizmente, quero apenas ver de longe ou cumprimentá-lo à distância. E não porque seja mau, mas também por ser, basicamente, indescritível. Lamentável talvez seja a palavra que se aplique a todo o conjunto. Mas não ao conjunto da obra que, reduzida aos dois cômodos e meio (a escada e seus adendos), há de ficar minimamente próxima ao desejável. Desde que não pousemos nossos olhos nus às imperfeições, é claro.

Sobra-me pouca sensatez nessa zona, inclusive, porque a vida não dá tréguas e continua, como é de seu feitio, emanando suas exigências. A pouca clareza que me resta nessa bagunça, utilizo para o trabalho que, no meu caso, inclui, além de palavras, papéis. Nem sou louca de mencionar o malabarismo que faço para não me perder das minhas dezenas de papéis, papeizinhos, cadernetas, documentos, contas, revistas, jornais, recortes, papers, I don’t know what else.

Else era o nome da esposa de um magistral professor de piano que tive durante seis meses. Ele ensinou-me, basicamente, tudo. Como foi que me lembrei disso agora, não sei, pois pouco estive com Else – ela apenas abria a porta da casa. Não, não. Não abandonei o tema da crônica agora. Fica a observação sobre Else apenas como um demonstrativo de como anda minha cabeça. A reforma, assim como a presença indesejável do pintor e de seu ajudante nesta casa, continuam até a semana que vem.

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Sobre Marcia Savino

Oi, seja bem vindo/a e passeie por esta literatura de rápida leitura! Indique para os amigos e... volte sempre!
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3 respostas para Else e a reforma

  1. Carla Sarno disse:

    Sabe Marcia, entrei meio sem rumo sem saber ao certo o que encontrar. E qual minha surpresa te encontrar assim, tão linda , tão inteira neste papel.
    Com tanta produção,confesso sem hora para ficar, mas retorno meio que curiosa pra descobrir outras vertentes ou outros olhares seus. Adorei !!!!!

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  2. roberto boetger disse:

    É sempre saudavel desconstruir alguma coisa para revitalizar depois – nem que seja a sua propria casa. Na bagunça se descobrem coisas inuteis, desaprecidas, esquecidas. Tempo de renovação!!!

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  3. Fernanda disse:

    acho que se está resgatando a Else pode resgatar outras coisas da memória. estou com o bob. desconstruir!

    E se nada mais de bom vier… bom, mudar assim sempre nos ajuda a valorizar mais nossa rotina… ai q delícia de rotina…. n é mesmo?

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