Amor, me abraça?

Amor, estou um pouco alterada, tá? Mas não é nada com você, não. É só da pele pra dentro. Só um pouco atarantada. Tô avisando pra você… saber. Ih, perdi os óculos.

Sumiram. Dou passos largos pelos cômodos. Ligo o computador e desligo. Abro um documento, escrevo e fecho a frase. Abro os olhos no domingo ensolarado e belíssimo, mas sei que o mar não está para peixe. Sonhei com água e escândalos – que é uma palavra que agora utilizo porque é polissílaba, como a que de fato deveria estar ali: pesadelos. Um dia, pesadelos deve ter tido acento circunflexo.

Um passo no escritório, um no quarto, um na sala, um no banheiro, um no corredor; corri o andar inteiro. Normalmente deixo meus óculos de leitura e escritura nas esquina dos cômodos. Mas parece que as esquinas se multiplicaram e eles não estão onde poderiam ser encontrados. Ainda vivo na zona. Acostumei a me encontrar na bagunça, isso não é de hoje. O pintor deixou a casa na sexta.

E hoje é domingo, eu disse. De sol. Lindo. Eu também, linda, de preto, a mesma roupa de ontem, o mesmo cérebro cozido, a mesma energia nas pernas, pelo menos. E nos dedos, felizmente. É um domingo legal, sem dúvida. Meu filho adolescente que não mora aqui está comigo. Dormingo. Saiu a palavra assim, assim fica.

Amor, me abraça? Estou com dor de cab… Está com capacete? Estou…, com capacetinho. Vou lá embaixo tomar uma xícara preta de café, quero dizer, uma xícara de café preto. Há uma sofreguidão, quero muitas coisas, não ao mesmo tempo, preciso que elas desacumulem, como preciso que esta casa entre nos eixos, como sei que vai demorar pra kct, como sei que só depende de mim, como sei que sei botar coisas em ordem, e sinto energia nos dedos.

Escrevo e organizo a casa, kkk!, e procuro os óculos, e encontro as palavras, e não desço para tomar café, e não levanto mais da cadeira, e não acho a frase que pensei de manhã, e ainda é de manhã, e. Queria ter ido até o fim, mas parei na dobra do pensamento. Desço, então para outras passadas largas e uma xícara de café. Levo meus óculos no rosto, porque claro está que não escrevi até aqui sem eles.

Hum, cê tá esquisita! Vou lá embaixo, ele está trabalhando na cozinha, com papéis sobre a mesa do café que o filho ainda não acordou para tomar. Eu digo pra ele que estou aqui em cima escrevendo como uma metralhadora. Ele divide comigo suas observações sobre o trabalho, o que é um convite para eu voltar ao normal. Mas eu não quero. Comecei e vou terminar a crônica desse jeito. Sim, porque isso é uma crônica. Some! Some! Trago o café para cima, depois que ele diz assim. Mas diz com amor.

Anúncios

Sobre Marcia Savino

Oi, seja bem vindo/a e passeie por esta literatura de rápida leitura! Indique para os amigos e... volte sempre!
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

4 respostas para Amor, me abraça?

  1. bernadette valladares disse:

    Muito bom ler suas crônicas,uma delícia,vc escreve brincando com as palavras e com as situações,às vezes acho que deve ser uma delícia cantar,soltar a voz,como acho que pintar com liberdade tb é fantástico,vc escreve como quem canta ou pinta acho que isso é arte ou dom ,parabéns!

  2. Fernanda disse:

    adorei! até imaginei a situação…

  3. Dani Aires disse:

    Oi Marcia! Adorei esta cr^onica, eh a sua cara…rs A “xica” de café entao.

    • maria helena disse:

      Márcia, que bom ler suas crõnicas de novo. Como já comentaram dá para imaginar a situação. Como sp vc inteira/verdadeira, na crônica. Estou lendo as antigas tb sempre que tiver um tempinho virei te visitar.
      Bj

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s