Aos valiosos leitores

Entumecem em mim textos, palavras, cores. A frase me ocorre em um supermercado, sábado, quando o olho passeia. A crônica ocupa o andar superior da escrita cotidiana. Aquele que a almeja, deve estar pronto a alcançar os degraus. Deve laborar o texto, para que ele encoste no tempo e o transcenda. Deve cantar e recontar a cidade, a casa, a rua e ir além. Quem quer subir os degraus da crônica, tem que dar um toque de aparência na intimidade.

É por esta razão e não por outras que tenho andado ausente. O impulso para o degrau não tem sido suficiente. Perde-se ao misturar-se com as horas de TV, do lazer, da internet, das notícias. E, na hora do banho, infelizmente não se escreve. Quando tenho uma frase que julgo valer a pena, quase sempre estou sem caneta. Pesquisarei depois essa expressão – valer a pena, pois quem sabe ela não se refere àquilo que vale ser escrito?

Pesquisa, tenho feito muita. Leitores, não. Leitores, os tenho de grão em grão. Cato um aqui, outro ali, sei os nomes de todos eles. Sei onde moram: nas dobras das letras. Saber que há poucos, mas valiosos leitores nessas quebradas é algo que não se pode descrever. É inefável. É, portanto, ruim que eu não seja capaz de vir aqui com a frequência recomendável. Mas a causa é boa, há um projeto em curso e eu hei de ficar livre para as artes!

Outro dia, estava no banco de trás de um taxi com meu marido, no trânsito caótico da grande cidade. Fim de tarde, vento, muitos carros, a chuva avisando que chegaria, calçadas vazias, pontos de ônibus cheios, o trânsito alivia um tico, os carros andam, uma senhora da calçada acena esperançosa para o taxi amarelo. Mas (tem sempre um “mas”, dizem) lá dentro estamos nós, acomodados, a caminho de nosso destino, que era apenas um, naquele caso: seguir em frente, descer a rua, engatar no fluxo.

Certamente não fui eu, que não saberia fazer isso com a mesma maestria. Apenas vi a senhora na calçada desistir e dar um passo atrás a um metro do carro novamente parado no trânsito. Mas meu marido disse: Senhora! E ela se voltou. E nos olhou. E aí, sim, eu olhei para ela, assertiva. Era um convite. Ela se aproximou um pouco da janela do taxi e olhou também para mim, que estava mais ao fundo. Meu marido disse: Só vamos até ali, siga conosco e fique com o taxi. Quando ela estendeu o olhar até dentro do veículo para melhor compreender a situação, eu disse sim com todo meu corpo da melhor maneira que pude.

Bastou que se sentasse no banco da frente ao lado do motorista, para que a prosa começasse ininterrupta, até o momento em que descemos, dez ou quinze minutos depois. Ela seguiu adiante, como estava previsto. Em tão poucos minutos soubemos que era tradutora, enfim, que gostava de palavras, gostava de português. [Eu gosto de palavras, então, gosto de português – bem assim.] Entreguei-lhe meu cartão num impulso, um gesto de simpatia apenas, mas ela identificou ali outra pequena coincidência. Então, enquanto nos agradecia e instruía o motorista ao seu lado onde ele a deixaria – muito perto, na verdade – eu seguia minha vida adentro, indo a outras freguesias. Estávamos felizes: voltávamos de uma consulta médica muito positiva.

Mas, um ou dois dias depois, recebo um email da educada senhora que agradece o ocorrido. O seu agradecimento engrandeceu-me tanto que eu estendi a prosa com a desconhecida, vivida, de olhar forte e firme. Respondi sinceramente feliz pelo nosso gesto que desafiou em quase tudo as convenções desagradáveis dos tempos modernos. Agimos sem medo e fomos retribuídos. Saber disso me fez respirar mais profundamente e encontrar o ar mais puro: foi muito bom! Tão bom que dei um passo adiante e convidei-a para conhecer minhas crônicas. Eu a desejava ter como leitora! Mas ela não me respondeu.

Não me respondeu. Passadas algumas semanas, recebo o segundo email da Anna. Para dizer o que senti, precisaria repetir o que ela escreveu. Não vou fazer isso, mas preciso informar que Anna é minha mais nova leitora – depois, até, da Maria Helena, que fui buscar lá no Nordeste. O impacto das suas palavras me fez pular de alegria e eu não consegui responder assim, de pronto. Já faz dois dias. Anna pode estar pensando que eu ando muito ocupada ou, pior, que não lhe dei atenção. Desculpe, Anna, mas eu precisava responder à altura!

Obs.: Agora, você, valioso leitor, imagina o que é que a Anna estava fazendo na calçada naquele dia antes da chuva? Tinha saído de casa para ir fazer o Título de Eleitor que, na véspera da eleição, já não servia mais para nada! Êh, Brasiu…

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Sobre Marcia Savino

Oi, seja bem vindo/a e passeie por esta literatura de rápida leitura! Indique para os amigos e... volte sempre!
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5 respostas para Aos valiosos leitores

  1. Anna Maria de Castro Santos disse:

    Querida Márcia,
    Li com emoção a sua crônica.
    Independentemente das várias versões sobre a origem da expressão “valer a pena”, o que prevalece é o valor da sua pena que registrou com tanto talento e sensibilidade o episódio do nosso (muito feliz) encontro.
    Beijos carinhosos
    Anna Maria

  2. roberto boetger disse:

    Não sei o que é mais valioso, o seu gesto de compartilhar o taxi com uma desconhecida ou a sua cronica para compartilhar aquele momento. Como sempre, você usa as palavras para celebrar a vida de maneira unica e especial.
    Mas não deixe de fazer sua cronica semanal, pelo amor de Deus!!!

  3. Marcinha, que bonito… Adoro ler suas crônicas porque são sempre muito sensíveis e porque parecemos muito uma com a outra. Muitas vezes não tenho coragem de dividir as minhas histórias cotidianas com as pessoas, porque eu”me” vivo em outro mundo.

    Muito bom saber que você está nele também! 🙂

    Saudades!

  4. Dani Aires disse:

    Oi Márcia,

    Adorei o texto.
    Ele transborda sentimentos e nos faz pensar que a correria do mundo contemporâneo não é páreo para a gentileza das pessoas.

    Bom feriado e até 4a!

  5. É clichê, mas a vida só tem algum sentido por pequenos gestos como esse. E olha que ainda rendeu uma bela crônica!

    Um ótimo feriado.

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