Véspera

Claro que eu queria escrever uma crônica agora! Mas agora eu não posso! Agora eu tenho que tomar banho. Porque estou suja. Estou suja de tanto viver. Claro que eu tenho que tomar banho agora, porque tenho que sair. Tenho que sair para comprar uma blusa nova para usar amanhã. Eu não ligo tanto assim para uma blusa nova. Nem para usar amanhã. Não ligo mesmo. Mas para uma crônica nova… uma crônica nova sempre me liga muito.

Estou com as mãos sujas e teclo despudoradamente. O tempo é bom, a contradizer os institutos do clima mais famosos por aí, que previam nuvens e trovoadas ao fim desta tarde. E, pior, de amanhã. Sorridentemente celebro que se enganam os institutos mais renomados e, em vez de chuva ou sol, um dia nublado. Dos mais bonitos por aí.

Ouço o ronco do carro se aproximando. Meu marido vai querer sair. Vai dizer que não estou pronta. E não estou mesmo, não terminei de escrever. A porta bateu, ele está subindo as escadas. Ele sobe. Se estou no banho? Suspendo as mãos no ar, estico os olhos sobre os óculos e digo, sorridentemente, para que ele compreenda: estou no banho. Ele compreendeu.

O que é que eu faço agora? Tenho que ser célere! Aprendi esta palavra quando trabalhei para advogados que advogavam mais celeridade para a Justiça. Se estivesse no banho enquanto ele foi ali prover mais alguma coisa para o dia de amanhã, estaria divagando improdutivamente e, como de costume, minhas divagações nem se aproximariam do papel. Aqui não divago, escrevo, o que é diferente, porque impõe-se-me encontrar um tema que, minha querida Anna, valha a pena, sem crase, porque é assim que se escreve.

Passaram-se cinco minutos e acho que cumpri bem o parágrafo. Pelo menos ele me trouxe até o parágrafo seguinte, o que é indispensável a um texto corrido: ter parágrafos. Pode ser apenas um, desde que não seja imensamente caudaloso, porque leitor nenhum, creio, agüenta um parágrafo caudaloso demais. Vou à rua comprar minha blusa e voltarei ao texto. Escreverei ainda hoje, antes que chegue o dia de amanhã.

Passei a semana arrumando a casa, limpando a casa, colocando em ordem as coisas da casa. E não é que tudo ficou bom? Sinto-me ridiculamente ridícula, conversando, assim, sobre mim. Mas, como diz o poeta: “(…) quem nunca teve um ato ridículo, quem nunca sofreu enxovalho?” Dou-me conta que há muito não leio Fernando Pessoa e que terei que recorrer de preferência a um livro ou, senão, ao Google, para não cometer impropriedades com o verso alheio. Ele está às minhas ordens, me diz o marido. Vou me banhar e sair. Se puder, aguarde aí que eu volto. Prometo… valer a pena!

*

Volto ao texto, sim, quase dois dias depois. Considero que não fui suficientemente ridícula. Não cheguei aos pés. Encontrei no Google – muito mais rapidamente do que na livraria, lo sinto – os versos do poeta que desejava. Ponho-me a ler o Poema em Linha Reta, coisa que não faço há pelo menos uma década. Poema que rezei, praticamente, em meus anos verdes. Salpico os olhos sobre as letras e encontro as palavras que procuro, como ridículo e enxovalho. Mas encontro também algo sobre ser sujo e tomar banho, e por isso o Poema está publicado logo abaixo desta crônica que se assume insuficientemente ridícula e informa, após pesquisa eletrônica, que não há antônimo para véspera. É este nome que não há, que seria [o título], se houvesse.

POEMA EM LINHA RETA
(Álvaro de Campos)

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado
[sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Fernando Pessoa

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Sobre Marcia Savino

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2 respostas para Véspera

  1. roberto boetger disse:

    É uma boa cronica, sem duvida. Mas como você gosta de dizer (desculpe, de escrever), “nas dobras das letras” senti que o titulo “vespera” poderia render algo mais…mais….bem, mais mais mais !!!
    Se você quiser se redimir, a proxima cronica deve se chamar “O dia seguinte”.
    A proposito: feliz aniversário.

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  2. Maria Helena disse:

    É muito bom ler vc, Márcia!
    Bj, cá do Nordeste!

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