Matarei uma crônica nesta manhã

Matarei uma crônica nesta manhã. Dormi com palavras. Não posso dormir com palavras. Elas correm o sério risco de embaralharem-se durante a noite, o que parece ter acontecido desta vez. Pela manhã querem sair desembestadas e não sabem por onde. Eu mesma não sei, mal enxergo. Tento, aqui, ajudá-las, mas elas vieram desembestando em mim enquanto dirigia.

Ouvi palavras gringas na música no carro; ouvi bem alto, para que solapassem as que andassem em mim. Deitei-me na música alta enquanto dirigia, de forma que o som movesse meu corpo inerte, regido apenas pelas bestas. Elas não se calaram, as desembestadas, até aqui. Amansadas pela música, que tinha que ser alta, me sorriram.

Vi meu corpo refletido nos vidros das vitrines. Parece uma moça séria, aquela. O cabelo, puxado para trás. Horrível, porém compunha o resto, conservadoramente. Excepcionalmente – porque nesta manhã – busquei variar um pouco a rotina de minhas roupas de trabalho; excepcionalmente, vesti-me de preto e vermelho. Estava bem, eu sei, para o trabalho. Aliás, estou bem. Segui um ritual simples, combinei com as unhas, salpiquei outras corezinhas pra aliviar, e pronto.

Agora dou graças, porque as unhas me guiaram. Numa manhã dessas, eu correria o sério e habitual risco da indecisão. Ainda não tinha acordado quando levantei, quando tomei o café, quando me vesti, quando escovei os dentes, quando vi o almoço, quando peguei minha bolsa, quando liguei o carro, quando dirigi, quando estacionei na vaga pequena, quando desliguei o carro. Cedi ao sono e dormi alto embalada na música castelhana, si,si,si, na voz do baiano caetano. Dormimos alto por instantes, eu a música, os olhos vidrados longe, no vidro da escola onde parei o carro. Não acordei por nada em cinco minutos. Dormi profundamente ali. Fechei o carro e saí.

Foi quando, andando para o trabalho, vi meu corpo refletido na vitrine. Considerei que fiquei bem no disfarce. Ninguém no mundo, nem, talvez… nem eu desconfiaria daquela moça séria, de preto blaser, de preta pasta, de passo para o trabalho. Nessas horas em que as bestas estão soltas por dentro, o trabalho apruma. Como as unhas para a roupa que vesti, foi o que me deu sentido para sair.

O escritório ativo no início da manhã tem seu próprio ritmo. Insiro-me. Instalo-me. Esgueiro-me entre as letras que escorrem por dentro pedindo para sair. Como vim dormindo alto no carro e dormi cinco minutos na música alta antes de sair, as letras bailaram ao movimento do meu corpo do carro para a rua. E vieram dançando até aqui! Não pude evitar. Fizeram um balé curto e bonito: formaram a primeira frase. E outras.

Segui o protocolo no escritório: toquei a campainha, dei bom dia aos presentes, liguei o computador, puxei meus óculos da bolsa, dei bom dia aos chegantes, digitei minha senha, achando que acordaria. Resisti. Não acordei nada. Resolvi encarar o texto, guardando o sono nos joelhos, onde ninguém via. Suspendi o tempo – minutos que não farão falta a ninguém, mais do que a mim e às bestas.

E resolvi parir. O sono preso nos joelhos cedeu, comedidamente, salpicado no texto para lhe dar sentido. Assim, em vez de matar a crônica de hoje, como achei que, mais uma vez, faria, fiei. Fiei palavras em fila que, de bestas, nada têm.

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Sobre Marcia Savino

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Uma resposta para Matarei uma crônica nesta manhã

  1. Dani Aires disse:

    Oi Márcia, li a crônica.
    Bicho! Como vc conseguiu escrever uma crônica neste dia?! Terça-feira tensa em que tivemos AQUELA reunião… Parabéns, texto bacaníssimo, como sempre.
    Bjks, Dani

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