Friburgo: a primeira ficha

Sou friburguense, moro em Friburgo e, pela janela, vejo o perfil da pedra do elefante que quase não sofreu nos acontecimentos de janeiro. Eu também não. Por isso, talvez, não tenha escrito aqui nem uma linha no auge da tragédia. É verdade que eu me dei umas pequenas férias e repensava a proposta do conteúdo de minhas crônicas, mas o que se sucedeu não estava nos meus planos. Nem nos planos de quem quer que fosse, óbvio. Demorei a vir escrever, porque tornou-se simplesmente impossível.

Na única semana que tirei para descansar aconteceu o que ninguém, sequer, poderia prever. Eu estava dentro de uma piscina limpa e sob céu azul, quando, na tarde do dia 12 de janeiro, tive notícia dos acontecimentos matinais. As primeiras informações, embora não nos dessem chance de compreensão real dos fatos, já chegaram boas para mim: meus familiares estavam bem, incluindo meu filho, que não estava comigo.

Falei com meus pais no dia seguinte. Com meu filho só consegui comunicação três dias depois – foi o máximo que me ocorreu. Minha casa estava bem; no meu bairro, diziam e repetiam, não aconteceu nada. Era impossível crer. Acompanhei as notícias terríveis primeiro pelo Facebook, depois pelas TVs, mas foi em uma foto na capa do Globo mostrando uma rua inteira, que conheço bem, com carros estacionados sob um metro de lama é que caiu a ficha. A primeira.

Lia notícias recorrentes no Facebook com tal freqüência e sofreguidão que adquiri uma séria tendinite no ombro direito. Nos primeiros dias, fomos veementemente desaconselhados a voltar para casa, sob pena, inclusive, de tirar recursos de quem estava na cidade convivendo com toda sorte de privações. Meus pais, ajudados por meu filho que estava por lá, passaram a noite da tragédia colocando objetos para o alto, com água acima dos joelhos. A casa é enorme, o trabalho foi grande, e eu muito aflita, de longe, acompanhando pelo telefone fixo.

Por uma razão que não se explica, consegui contato regular com meus pais, irmãos e sobrinhos alojados no pequeno apartamento de meu irmão, no centro. Catástrofe. Eu precisava retornar ao trabalho na segunda-feira, ainda não havia falado com meu filho que se desligara dessa família para ajudar o seu próprio pai, cuja casa fica também na beira do rio. Dentro do rio. E ele é ecologista. Mas não é culpa dele. A casa já estava ali. Aquela rua está na margem esquerda do rio, mesmo antes de eu nascer. Sei, porque nasci na esquina.

Entendi que meus pais e irmãos passavam o dia limpando a casa, mesmo sem água, e retornavam ao apartamento para dormir. Dois quartos pequenos, cinco adultos, duas crianças, um bebê, ou seja, muito pouco aperto perto de outros relatos. Pela voz de minha mãe – sozinha com as crianças no apartamento, na manhã de quinta – sinto uma miligrama de outro pavor que tomou conta de muita gente: Alguma coisa de muito grave está acontecendo, porque está todo mundo correndo para trás, carros na contramão estão voltando. Como é que é, mãe? Ligo para minha irmã, Rosa, aflita, em casa, limpando, que me diz chorosa: Não posso falar, vou ter que sair daqui agora, parece que está tendo um arrastão!

Corro ao Facebook, narrações horrorosas de multidão em pânico, uma cidade em pânico correndo pela contramão. Não era nada, soubemos depois, mas ninguém vai querer passar por aquilo de novo. Neste caso, pelo menos, uma escandalosa mentira. A tensa voz de minha mãe no telefone foi o que vivenciei. Não estava com uma criança na praça, não comprava pão em alguma padaria, não retornava cansada e entristecida do trabalho da limpeza sobre a lama de uma rua qualquer.

Cinco dias depois eu voltei ao trabalho no escritório da Firjan no Rio e passei dois dias atendendo aos jornalistas ávidos pela grandeza das trágicas novidades. A imprensa toda na minha terra; eu, fora dela. Quando retornei, uma semana já tinha se passado, mas a Globo ainda estava ali. Subi a serra procurando traços das notícias que engolira. Nada vi, exceto uma rodovia em meia pista ladeando um precipício já em recuperação.

Entrando na cidade, sim, estava ela, a mesma do noticiário: uma insistente poeira amarela em meio aos automóveis públicos e coloridos da defesa civil, da marinha, dos bombeiros, da funerária. A caminho de casa e do trabalho, um lanhado de morro aqui, outro lá. Meu primeiro contato com as coisas que caem – árvores, galhos, fios, postes, barrancos e precipícios – foi a caminho do hospital da Unimed. Uma estrada distante poucos quilômetros do centro da cidade, percorrida, no dia seguinte, por necessidade extrema de consertar meu braço. Eu precisava dele são para obrar no mouse.

Mas não na enxada e na lama, não na borracha d´água, não carregando os móveis destroçados de meus pais. Continuei atendendo jornalistas com intensidade e continuo fazendo isso até hoje, por três semanas seguidas. De sorte, tenho três irmãos, que se apoiaram no trabalho. De sorte, meus pais têm saúde. De sorte, não perdi nenhum amigo. Quanto mais entrei no cotidiano do burgo uma semana após o trauma, mais estarrecida fiquei com uma enorme verdade a meu respeito:

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Sobre Marcia Savino

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