Antes que se apague o mundo

Espraio, espalho, me estendo sobre amplo e abrangente arco que me leva… até o Japão. Já foi mais longe, o Japão. Anda muito pertinho. Espreme essas letras, antes que te traguem. Há um quê de desatualização aqui que pratico. Correr pra quê? Pra quê mais? É o fim que nos espera mesmo.

Não, não sei sobre que vou escrever. Sei que deve haver algum subject, algum centro focal que me faz mover incessantemente de um site a outro, de um doc ao outro, de uma tarefa à outra, de um compromisso ao outro. O que é que me alinha mesmo? Perdi o fio do pavio que vai ao vento e viaja na moça do tempo na TV. Nada mais a ver.

O jornalismo diário morreu e não é por falta de assunto. É falta de novidade mesmo. As imagens morreram. Ou, melhor, encalharam. As imagens estão encalhadas nos desastres. Não há nada belo, mais, que se possa mostrar. Nada em ordem. Nada organizado. Não é conveniente pauta mostrar belezas naturais que não estejam devastadas pelos desastres cíclicos. Sou muito enganada sobre apocalipses. Só recentemente ouvi comentarem com naturalidade a profecia de que o mundo acabaria em 2012. Isso não era um filme?

Está tudo junto e misturado, dizem na TV. Acho que ninguém registrou esta frase no INPI, porque é possível vê-la em toda parte. Antes, diziam os músicos Titãs: tudo ao mesmo tempo agora. É pouco. Parece pouco, now. Tem que ser agora, sim, mas junto e misturado. Exatamente como o efeito visual das devastações. Não se distingue uma mão do pé de uma cadeira. Tudo parece retalho, entulho, pedaços de pau e pedra, de volta ao começo, sem luz nem água encanada, sem energia nuclear. De volta à idade da pedra.

Romantizo, porque não há outro jeito. Romanceio. De outra frase antiga, bem antiga, de um compositor brasileiro dos tempos difíceis (a dura dita da qual nos livramos), me lembro. A boca tampada com máscara branca, os olhos japoneses avermelhados de lágrimas – a moça não identificada perdeu seus parentes, diz a legenda no jornal. Eu não queria estar atrás daqueles olhos, daquela franja. As lágrimas são de retrato. A dor da gente não se imprime. Já dizia a música, antes, que a dor da gente não sai no jornal.

Na TV, não há mais o que dizer. Não se pode ignorar a notícia, a enorme tragédia, o enorme medo. Não se pode inventar palavras para descrever o óbvio desastre. Não é possível humanizá-lo, dar um toque final, algo como justiça, como um enterro digno, um toque de flor brotando do caos. Os jornalistas estão cansados. Cansados das imagens, cansados das palavras, cansados das tragédias que mudam apenas de endereço.

Quem está vivo, segue vivendo. Quem tem fé, segue rezando. Quem não tem, reza também. Quem rouba, segue roubando. Quem prega, segue pregando. Quem luta, segue lutando. Até que o desastre lhe seja próximo, talvez. Há os que ignoram até onde podem. Há os kamikazes da vez. A todos nós caberá uma papel, no fim.

Quem escreve, segue escrevendo, descobrindo as palavras na escuridão – sem luz, sem velas. Que venham elas, com seu próprio brilho, a iluminar um momento breve. Antes que o mundo se apague.

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Sobre Marcia Savino

Oi, seja bem vindo/a e passeie por esta literatura de rápida leitura! Indique para os amigos e... volte sempre!
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3 respostas para Antes que se apague o mundo

  1. Angela Neves disse:

    Lindo texto, pura emoção, realismo e poesia; impecável! Maravilha!

  2. roberto boetger disse:

    As palavras mais importantes e lindas que me atravessaram o caminho nas ultimas semanas!

  3. Myriam Bohrer disse:

    Belo texto, Márcia!

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