O mundo era muito grande

Eu ainda era jovem, quando o Gabeira chegou do exílio na Europa e foi passear de tanga de crochê em Ipanema. (Não era de crochê? Não tem problema). Ele trouxe na bagagem um recado dos verdes alemães naqueles anos em que ninguém ainda se preocupava com essa coisa que, em português, tem um nome estranho e praticamente incompreensível à primeira vista, chamado meio-ambiente. Era preciso começar a prestar mais atenção à natureza e a ter cuidados com uma coisa enorme chamada planeta.

Era uma época sem internet, sem novas mídias, nem essa mídia sócio-digital onde cada homem, um jornal. O mundo era muito grande. Agora, o mundo é pequeno. Ontem, quando eu era jovem, foi exatamente a véspera de hoje. Eu andava com um macacão de brim branco bem gostoso, bem folgado: Nuclear Não. No bolso, no peito, em preto-vermelho-amarelo, as palavras não ditas se liam no símbolo rejeitado desse tipo de energia. Eu era toda engajada, como se dizia.

Quando ando pelas ruas com o olho vago, o pensamento passeia pelas notícias a que presto atenção mesmo sem querer. O mundo parece dizer agora, para mim, que o Gabeira e todos os verdes tinham razão. Têm razão. Têm muita razão. Ando nas ruas com o olho solto, é quando o pensamento me assalta e ouço o que ele me diz, mesmo se não quiser. Juntam-se as frases de um site, com outra que escutei por aí e resumo, com licença, o extremamente complexo no embate dos que querem mais progresso com quem prefere a luz das velas. Chegaremos a elas.

Gritar não adianta nada. O homem do taxi no trânsito de São Paulo quase perde a entrada à direita para a Consolação e precisa pedir licença a três filas de carros e também a um motoqueiro enorme para pegar a rua. Todos cedem. O que é que a gente não consegue com educação?, pergunta ele. Educação é a chave que abre todas as portas, ensina. Se tivesse educação, saúde e segurança, não precisava de mais nada, opina. Não é por falta de saberes que nós, humanos, não avançamos muito para o lado bom da vida.

Alguns problemas existem para não serem resolvidos. É a minha conclusão. Eu nem gosto de rodear esse tema. Mas não há escolha, ele vem de toda parte, inclusive, agora, de dentro de mim. As chuvas que exercem o simples ato de chover, aqui onde eu moro, apavoram pelo mero fato de cair.

É desagradável falar: fiquei velha para sonhar. Mas não para esquecer a força com que eu queria um mundo melhor, justo, humano no seu mais alto nível. Eu achava possível, achava que as palavras… acreditava na força da intenção, na força do verbo… hoje penso apenas que colhemos o que vamos plantando.

Eu não tenho quinze, eu não tenho vinte, não tenho trinta. Para trás, porque pra frente é o mínimo que eu espero. Ouço música alta no carro, mas não é para espantar os pensamentos tristes. É para lembrar que a vida existe, mesmo sob um céu de chumbo como o de hoje de manhã. A vida é fagulha. E, a gente sabe, brota!

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Sobre Marcia Savino

Oi, seja bem vindo/a e passeie por esta literatura de rápida leitura! Indique para os amigos e... volte sempre!
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Uma resposta para O mundo era muito grande

  1. Martha Santos disse:

    O mundo ficou pequeno e … assustador!

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