Abstrair

Abstrair. Fingir que não se está, estando. Tentar pensar algo que te leve para longe dali, ainda que o corpo não possa ir. Calvário. Respirar, pelo menos, respiro. A posição não é das piores. Estou sentado. Sobre e sob escombros. Já conheço isso, não é novidade. Foi assim que fiquei no buraco do qual saí vivo na primeira vez. A TV me filmou ao sair. Eu fiquei na moda. Depois das calças com buracos, ficar em buraco está na moda. Super, super in. Foi logo depois que os trinta e seis mineiros chilenos saíram da cova. Foi, inclusive, nesta ocasião que decorei o nome do presidente Piñera, do Chile.

Não estou ouvindo vozes ainda, mas sei que eles estão por aí. Eles me perguntarão sobre tudo o que pensei e passei aqui, quando sair. Vou sair. Foi assim da primeira vez. A TV vai me filmar de novo. Pela segunda vez? Quem consegue tal feito duas vezes? Pensar, pensar, preciso salivar um pouco, estou com algo que parece fome. Deve ser fome, estou pensando em comer um pedaço do meu próprio estômago. Um pouco de suco gástrico, para irrigar e… pronto! Estou satisfeito! Piada numa hora dessas? Está bem, e em que outra hora seria mais oportuna?

Fiz esse exercício – imaginação pode ser uma coisa terrível – enquanto aguardava a consulta médica em uma sala pequena, apertada e cheia, com as clientes agüentando, na sala de espera, a modorrice. É muito chato esperar a fio. O lugar mal dá para esticar as pernas ou os braços. Pessoas entram e saem todo o tempo, esbarram em você. Cedi a vez para uma senhora, estou atrasada mesmo. E, ademais, escrevo aqui. Agora, meu medo é – alguém falou medo? – o meu agora é que chegue a minha vez antes que eu termine uma frase. Não seria bom gastar o tempo das pessoas fazendo-as esperar eu ainda guardar minhas coisas para entrar na consulta. Sou a próxima.

Da dita consulta até este parágrafo aqui já se foram pelos menos uns… quinze dias. Não quis jogar fora um bom raciocínio. Continuo embalada em muitas coisas, mas na minha trança cotidiana cabem bem essas mal traçadas linhas. Tudo é uma questão de jeito, de pegar no laço o pensamento andante e fazê-lo aterrissar na… virtualidade contemporânea.

De pé, na fila da azeitona preta, espero o atendente saciar a senhora da frente. Outras duas conversam animadamente, enquanto fazem o mesmo que eu. Outra dona chega por trás, perguntando para mim o que eu já havia perguntado antes: isso aqui é uma fila? Era. Uma fila pequena, diante de um balcão pequeno, de um hortifruti que se fazia pequeno para tamanho volume de gente, na Sexta-feira da Paixão. Atrás do balcão, grande variedade: de tomates secos a biscoitos, passando pelas azeitonas, claro.

De costas para a fila, comecei, de longe, a devorar os tomates, os mamões, as frutas todas de todas as bancas. A um momento, meu olhar, como um raio, vazou os tomates, ultrapassou as bancas e as gentes, levitou. De pés plantados no chão, meu olho voou por um breve e infinito momento. Vejo meu marido entrando no quadro, chegando com o carrinho. Dou-me conta que voei. Comprou a azeitona?, pergunta ele. Ainda não, eu disse, apontando a fila. Mas terminei uma crônica! Um beijo, leitor!

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Sobre Marcia Savino

Oi, seja bem vindo/a e passeie por esta literatura de rápida leitura! Indique para os amigos e... volte sempre!
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2 respostas para Abstrair

  1. Fernanda disse:

    q bom q vc escreveu! adoro ler seus textos!

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  2. Dani Aires disse:

    Oi Márcia, Adorei este texto, me identifiquei com ele na hora. Mt bom, parabéns!

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