Licença poética

A luz da lua com tal força batia na pedra da cidade da serra que a refletia. O paredão do monte brilhava um raro brilho, espelhando a noite com intensidade. O próprio céu – invólucro da branca lua – evocava o brilho negro das noites férteis de lua cheia. Um passado recente, evoco agora. Ficou ali atrás, entre o portão da garagem e a porta batida do carro, a percepção fugaz.

Antes disso, ao final de uma semana, ao fim de um dia de trabalho, uma amiga ao telefone me pergunta: você já viu o céu? Corri para vê-lo. A lua alta, redonda e branca – de um branco perolado intraduzível – reinava ao fim de um dia útil. Era espantoso vê-la – a lua, no céu claro – ao fim de um dia como este.

Começara chuvoso. Mais que isto, trovoadas reinaram na madrugada. O espanto trespassou espinhas na alvorada. O jornal, pela manhã, assinala, no título, que o “verão do medo” se avizinha. Não é nada agradável quando os jornais espelham os nossos temores civis. Mas eles o fazem por dever de ofício.

Entendo eu, há dias, que havia os jornalistas – ao invés de clamarem a juventude para as ruas contra a corrupção cultural brasileira – de tomarem para si a bandeira. Claro como a lua: por dever de ofício, por saturação de velhas notícias, por falta de matéria-prima (a novidade), por puro enfado, enfim, deveriam os jornalistas aboletados na função descer das redações para o protesto.

Creio muito, eu, na legitimidade de um protesto jornalístico contra a corrupção no Brasiu. Quer alguém alvo melhor? Nos dias de hoje? Saboroso repasto seria. Argumento não falta. Jornalistas, cansados de noticiar as mesmas notícias cruzariam os braços contra o status quo. Seria razoável. Saturação do mercado, que carece de sua potente matéria-prima: a notícia. Insalubridade, por exemplo. Quem há que considere saudável, ano após ano, noticiar a mesmice eternamente como se novidade fosse? O que há de mais antigo no país, do que o corporativismo casado com a corrupção?

A corrupção é o tema da hora. Pra mim, sempre foi. Nunca consegui entender os inteligentes listando quais os principais problemas do Brasiu; discutindo se a educação vinha antes da saúde ou depois da alimentação e do saneamento básico. Sa-nea-men-tobá-si-co. Já virou até nome de filme. As palavras empedraram e não se pode culpá-las por isso.

Escrevo as palavras, você sabe, leitor, aproximando-as mais pela música que pelo sentido. Pelas falhas de compreensão, peço perdão, ainda que não ache muito importante. Na literatura, me parece, chamam isso de aliteração: quando a música das palavras fala mais alto do que o sentido. Eu chamo isso “escrever de ouvido”. Ouço bem as ideias de forma que, encadeadas, formem sentido.

Arrasto uma crônica há meses, não sei como chegar ao fim. Publico e ponto. Com desconto. A lua no céu brilha numa terça como se fosse sexta. Hoje é dia de véspera. Amanhã, é feriado. Hoje, um dia nublado, de chuva e variedades, termina brilhante por causa da lua. velha e eterna lua. Esta sim, sempre nova, pelo menos, para mim!

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Sobre Marcia Savino

Oi, seja bem vindo/a e passeie por esta literatura de rápida leitura! Indique para os amigos e... volte sempre!
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2 respostas para Licença poética

  1. Faz tempo que não lia um texto seu. Sempre bom! Bjs!

  2. Digo, faz tempo que não leio um texto seu. Sempre bom! Bjs!

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