A cotovia

Óculos não têm identificador de chamadas, livros não têm identificador de chamadas, simplesmente não são encontráveis. Preciso de sábados. Livros de literatura perdidos, mesmo se pudessem ser chamados por celular na correria dos dias úteis, de que me adiantaria? (A boa e velha literatura é inútil e volta a fazer parte do cardápio dos meus dias.) Opto, assim, por escrever cifrado mesmo, meus bons leitores entenderão. Os maus também, mas não os tenho.

Estaria lendo, agora, e, não, escrevendo. Pois que não encontro os parágrafos de Agualusa, rabisco a ilusão de minhas próprias frases. Abri demais o pensamento, agora. Direita volver! Meu filho se formou no Ensino Médio em um colégio militar, vestiu farda branca, quepe e insígnias, e eu que fui jovenzinha esquerdista me pus a chorar. Engulo em seco. Estou até hoje aguardando que o orador da turma me envie o discurso que vi emocionar cada um daqueles rostos de filhos e mães durante o almoço comemorativo. Coração de pais e mães tem mistérios; mais mistérios que uma vida inteira permite decifrar.

Está dito. Sinto-me piegas se contar o que vi nos rostos dos meninos de cabelo rente ao crânio, sentados diante de suas mães ou pais, em mesas de dez, dispostos em um amplo e solene salão. Cabeças delineadas, cérebros pensantes e, nos olhos, abertura para a alma e o futuro. É tão bonito ver o futuro desafiando jovens! (Eu não sabia assim.) É tão bonito ver a esperança, o desejo de realizar, de construir, o orgulho de vencer uma etapa crucial que os levou de crianças a adultos. “A gente só sabia comer, dormir, brincar”, disse o orador que conduziu cada um a um lugar bem dentro de si mesmo naquela hora. A vida passando, três anos seguidos em uma troca de olhar.

Consegui agarrar o momento, ali! Tão intensamente o vivi, que o peguei. Dei pause. Stop! E de viés passei a observar os fatos da vida ao meu redor. Rugas e fios brancos não são apenas uma deturpação estética. Nem apenas provam a nós mesmos que o tempo passou e que tens um filho de dezoito anos e seus amigos têm filhos casando enquanto outros têm netos. Por dentro, o tempo não passa assim. Da janela dos meus olhos espio a vida desfilando fatos que não me convencem da idade. Os sonhos… Os sonhos parecem garantir ao viver a necessária dose de juventude.

É melhor, penso, acompanhar de perto a vida singrando o tempo. Ou, se preferir, o tempo singrando a vida. Quando se fica velho, é para sempre. E ficar velho é, entre outras coisas, ver os fatos de trás para frente. A segunda coisa melhor do mundo é não saber, porque é tão intensa a primeira melhor coisa do mundo: descobrir! Mas quando se fica velho – salvo a outra opção – é melhor assim. E ficamos velhos aos trinta, quarenta, cinqüenta, sessenta, setenta, oitenta, noventa e, hoje em dia, até cem. O filho envelhecendo tenuamente aos dezoito, aplaudo.

Meu marido sempre advinha a resolução dos filmes. Digo que deveria ser roteirista. Para convencer em um diálogo, muitas vezes usa a metáfora: “Já vi esse filme, o bandido morre no final”. Meu marido é mais velho do que eu, mas é ele quem me rejuvenesce de fato. Fomos ver, ontem, no teatro, a melhor releitura atual de Romeu e Julieta, de Shakespeare: “Juventude Interrompida”. Com a poesia em seu lugar, o bom e velho texto nos fez recordar. “Ouves? é o rouxinol!” – ela diz, querendo reter o tempo nas mãos. “Não, não é o rouxinol!” – ele responde – “Foi a cotovia, arauto da manhã, anunciando a aurora!”.

E, na dobra da vida, nasce sempre mais um dia…

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Sobre Marcia Savino

Oi, seja bem vindo/a e passeie por esta literatura de rápida leitura! Indique para os amigos e... volte sempre!
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2 respostas para A cotovia

  1. Anna Maria de Castro Santos disse:

    Márcia,
    Adorei A Cotovia!! Na mesma hora me identifiquei com seus sentimentos, que vivenciei e continuo vivenciando com filhos e netos. O tempo muitas vezes é aliado…

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  2. Dani Aires disse:

    Oi Márcia! Em primeiro lugar, parabéns pela formatura do filhote. E sobre a crônica? Muito, muito boa! Lembrei do q sinto ao ver fotos da infância no colégio. Adorei, não deixe de escrever! Bjks!

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