Santiago de Chile

Não, não vou escrever. Faz muito tempo que não faço isso, não é possível imaginar uma continuidade. Después, és muy dificile escribir quando se quer retratar a beleza. Fica o indizível dando voltas na cabeça e os dedos querendo capturá-lo em frases exatamente quando as mãos estão na cozinha cortando tomates. E pimentões e cebolas e abacates. E o sol lá fora a esperar junto ao coachar das crianças. Holy Friday!

Não, não vou escrever. Os sons se multiplicam como degraus. As palavras se espelham umas nas outras atrás de significados. Ouço vozes todos os dias. Vozes de uma família multicultural que deu de ser também a minha. Há significados em toda parte: nas cores, na mangueira largada no jardim, na cordilheira que nos observa imponente sob o céu azul igualmente real e inefável. Uma família ensaia suas melhores falas na cozinha.

As crianças são poliglotas. Eu, uma eterna aprendiz. Dispus-me a desvendar os mistérios mais simples da língua chinesa, o que a mente vazia do intervalo de férias me permitiu aprender. Tenho em mim ainda, agora, todos os sonhos do mundo. Meu sonho mais próximo é levar minhas férias para casa e compartir com mi hijo lo que aprendi acá. Sonho também respirar problemas mais simples e essenciais do que os do meu dia a dia.

Não vou escrever porque. Não há motivo real para não o fazer. Mas não vou escrever, porque, como disse, não escrevo há muito tempo. E começar a escrever é o início de um compromisso de escrever até o fim. E de cumprir uma agenda. E escrever quando não se quer ou não se pode e mesmo quando não se encontra o miolo do pensamento antes de resolver descer os dedos no teclado. Transforma-se isto na quase sempre necessária experiência de tatear no escuro.

Embora esteja claro. O dia de hoje e todos os dias precedentes. Mas, e se não acontece nada em uma crônica, haverá leitores? Sou fera em dúvidas. As crianças brincam em español, português and english. Eu quero aprender um pouco do chinês que elas falam, mas elas já deixaram a China e a família brasileira se reúne hoje ao sul da América Latina. Uma família com sotaques. E eu dentro ela. E mi hijo. E mis descendentes. E, supresa da vida, tengo nietas!

Chamam-me! Por eso hoje não vou escrever. Chamam-me! Hasta la próxima hora. Estoy descompromisada, sento-me numa escada, deito-me nos degraus, uma estátua me olha. Es comprida e está de olhos fechados numa esquina, mas mesmo assim, me olha. Zzzz o zombido da abelha já foi embora. Na cozinha, a família se demora. Yo tengo nome, acá. Soy la “joven abuela” de três netas crianças. A divindade de madeira finamente pintada me olha.

Há uma linda flor rósea que pende ao meu lado. Botoes se abrem e uma flor exibe os tons do seu esplendor. I wanna be in there. To show. As vozes da casa permanecem em clima de confraria. Os rapazes fazem sinfonia, mas é do mar. The only way to write, is writing. O problema existe e persiste. O almoço estava maravilhoso. O blend, perfeito!

Só as palavras teimam. Leio e releio, não me canso. O mar é manso e eu alcanço, enfim, um porto. Segura estou de que nem mais nem menos. Voltando ao caso das palavras explico que as frases, as escreverei sem dúvida. Porém, fim ao fato, óbvio desde novembro, de que não escrevo. Agora é abril. Pois, agora, escreverei! Besos.

Anúncios

Sobre Marcia Savino

Oi, seja bem vindo/a e passeie por esta literatura de rápida leitura! Indique para os amigos e... volte sempre!
Esse post foi publicado em Uncategorized. Bookmark o link permanente.

3 respostas para Santiago de Chile

  1. lourdes disse:

    O mês de Abril é um tanto quanto propicio para um recomeço.
    Parabéns, pelo texto.

    Adorei essa frase:
    O mar é manso e eu alcanço, enfim, um porto. Segura estou de que nem mais nem menos….
    Um abraço.
    Lourdes Pires

    Curtir

  2. Dani Aires disse:

    Adorei a crônica! Principalmente a descrição de sua crise de abstinência por não escrever (rs) e a convivência de várias línguas no mesmo texto. Não fique tanto tempo sem nos brindar com suas palavras. Bjks, Dani Aires

    Curtir

  3. wallstanzig disse:

    “…e mesmo quando não se encontra o miolo do pensamento”. Creio que o pior dos casos. Crônica muito gostosa de ler!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s