A novela da tv

Chegou em casa e ligou a tv. Simples. Apenas isso. Chegou em casa, não havia ninguém, ligou a tv. Nada mais, nada menos. Chegou em casa, nenhum sinal de vida fora as luzes que deixara acesa no jardim e dentro, onde não havia ninguém. Ligou a tv. Simples assim. Simples, não fosse por mim. Não fosse eu a pessoa que chegou em casa onde as luzes tinha deixado acesas e ligou a tv. Eu não liguei a tv. Eu tentei, somente. Nada más!

Eu vim da rua seca para ligar a tv. Vou ver a novela, ora bolas, nem sempre consigo. Mas comigo a tv não liga quando aperto o botão certo do controle. Ligo e desligo da tomada, e a tv impassível. Desisto muito rápido da empreitada. Algum motivo há, penso, para que isso aconteça. Reluto, mas estou quase convencida de que as máquinas não querem nada comigo. Questão de energia, penso, lá dentro, conversando com a artista que sou, quando não estou no meu papel principal.

Há duas semanas os computadores que uso para trabalhar têm me deixado na mão. Não vou dizer quantos, um em cada lugar. Então, tá, já que não vou ver tv, vou escrever. Penso isso imediatamente ao desistir da novela, ainda com pesar. Corro com o dedo no Macbook ao lado – que não é meu – e quando estou para pressionar a redonda superfície com o ícone de ligar, titubeio. Meu dedo treme de medo e eu penso rapidamente: será que liga? Todos os aparelhos que me cercam me traem justamente nesta função tão simples: ligar. Computadores são ótimos quando funcionam. Eu queria ver a novela. Controles de tv também são ótimos quando obedecem.

A tv, que funcionava bem até ontem , segue impassivelmente negra. A tela branca do Mac branco está salpicada do preto das letras. Mas eu não salvei esse texto ainda, porque não sei exatamente como nem onde salvar nada nesta máquina. Sigo escrevendo e pensando na novela. Será que quando eu der por encerrada esta crônica a novela ainda estará passando? Será que a tv vai ligar quando eu acabar o texto? Tenho razões para pensar assim. Hoje mesmo, mais cedo, meu notebook se negou a trabalhar. Passou a manha toda em off. E eu, claro, passei a manhã inteira fazendo “outra coisa” que não fosse trabalhar conectada.

Guardei as roupas que teimam em morar em cima da cama ao lado do armário. Guardei todinhas, mas agora, já à noite, algumas peças voltaram a ocupar o local. Arrumei um pouco de casa, demorei mais tempo fazendo o almoço. Computadores são ótimos quando não precisamos deles. Por exemplo, na cozinha. Vi os emails no Macbook de manhã e, nada havendo de urgente, fiz o tempo me esperar até depois do almoço, quando saí para trabalhar fora.

Engraçado que, no trabalho, o notebook ligou. Trabalhei. Muito. Cansei. Concluí à tarde o trabalho que teria feito de manhã e não teria terminado. Curiosamente sério, isso. O tempo tem seus segredos. No fim da tarde, era cedo. Voltei para casa e acendi as luzes, não havia ninguém. Estranharia se houvesse. Havia apenas eu e dentro de mim, sim, uma luz incandescente. Quis o acaso que eu pudesse ir hoje, exatamente, à aula de dança livre da Joana. Às cinco eu soube que tinha aula às sete. E – milagre dos deuses! – eu poderia ir.

Tive tempo de passar em casa com calma. Com fome, comi com frango um miojo no azeite pra lá de bom, em uma cuia. Quando estou sozinha em casa, gosto de comer vendo tv. Liguei a tv e tomei um susto. Essa não! Subi as escadas com o miojo caprichado na mão para ver tv e comer antes de ir dançar pela primeira vez em sei lá quantos anos e não tem tv? Despluguei a coisa toda da tomada. Pluguei de novo e. Fui abençoada!

A tv ligou e eu ainda na primeira garfada. Nem zapeio. A primeira palavra que ouvi foi Nicholson. A primeira imagem, a cara do Jack. A tv está contando pra mim a história de um dos meus atores favoritos. Talvez o mais favorito de todos. Observo muito os atores. Eu ainda os invejo, como quando era criança. Pra mim, foi um presente ver uma breve biografia do Jack Nicholson, meia hora antes da minha aula de dança. Vi e comi tudinho. Desci. Dancei. E voltei.

Como já jantei e é cedo, vou ver tv, pensei há pouco. Só pensei. O que eu nunca poderia sonhar é que hoje eu iria dançar. E, ainda, que iria escrever. Não salvei até agora este texto. Raramente faço isso. Será que ainda dá pra ver a novela? Não deu. Vou dormir cedo, tento. Mas uma amiga querida me tira da cama as onze e papeia comigo até a meia-noite. Dia seguinte: rotina. Chego à noite mais tarde em casa, doida para descansar vendo a novela na tv. Imagina se ela liga!

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Sobre Marcia Savino

Oi, seja bem vindo/a e passeie por esta literatura de rápida leitura! Indique para os amigos e... volte sempre!
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2 respostas para A novela da tv

  1. Dani Aires disse:

    Márcia, esta crônica reflete perfeitamente seu relacionamento com os eletrônicos. Consegui até visualizar as cenas… kkk Bjks!

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  2. Maria Helena disse:

    Olá Márcia… então voltou a dançar!!

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