Uma rosa é igual a um prato de comida

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Acho que aprendi a falar o nome das pessoas. Demorei muitos anos, mas aprendi. Isso deve significar alguma coisa, quando você deixa de esquecer o nome que a pessoa te disse assim que você acabou de conhecê-la. Hoje pratico melhor esse jogo da memória. Deve significar que dou mais atenção às pessoas.

Isso não apenas é bom, é ótimo! Agora quando pergunto o nome das pessoas que acabo de conhecer, quase nunca tenho que voltar a ela e dizer: qual é o seu nome mesmo? É ótimo também, porque significa que evoluí e atesta, sim, que o passar dos anos serve para alguma coisa.

Cruzei o sinal pensando nisso e agora estou sentada na padaria tomando café com leite e pão, no sábado, antes de dirigir até o Rio. “Oi, professora!” Hein?! Como?! Um rapaz negro e forte, de baixa estatura e poucos dentes me sorri. Não apenas sorri. Ele tem nas mãos uma rosa e diz: “É para você.” Eu?! O que eu faço agora? “Você não me defendeu outro dia, na praça, quando eu estava apanhando de uns garotos ali? Essa rosa é pra você.” Pego a rosa, claro. Adoraria ter feito isso, respondo, mas acho que não fui eu, digo, pensando se não estou esquecida do fato.

Sorrio. Devo estar parecendo mesmo uma professora com esses óculos de grau no rosto, esta caneta na mão, escrevendo na minha querida caderneta quadriculada enquanto termino, sozinha, o meu café. Sorrio e agradeço. Penso nisso, mas não pergunto seu nome, porque não quero papo, quero continuar escrevendo. Ele repete o mesmo texto, eu também. Diálogo findo, agradeço e volto meu corpo para a mesa. Antes que me mova completamente, smack! Ganho um solene beijo gordo na testa. Ok, eu penso quieta sob o olhar das atendentes.

Um jovem rapaz acaba de entrar na padaria e o cumprimenta quase concomitantemente a isso tudo. “Oi, Rafael!”, diz a ele. “Cê me paga um café hoje?”, é a resposta. Fico sabendo que o nome dele é Rafael e que, talvez, eu devesse pagar aquele café que o rapaz tão prontamente aceitou.

Rafael é uma pessoa educada. Às moças que o atendem, pede o café por favor. Senta-se na mesa atrás da minha. “Professora? Professora?” Saio de onde estou – do meio destas letras, exatamente – e me viro, olhando-o por cima dos óculos. “Professora, pode me passar o açucareiro?” De fato, havia um açucareiro dando sopa em cima da minha mesa.

Escrevo, mas penso: o que eu deveria fazer já que o café dele está pago? Começa um bate-boca atrás de mim e ouço alguém dizer “depois te pego lá fora”. Parece um funcionário da padaria provocando o Rafael que toma seu café interagindo com o ambiente. Fico sem saber se é verdade ou mentira, se o diálogo não passa de brincadeira, porque Rafael termina de comer e se retira.

Eu prossigo com a caneta. Meus olhos, que acompanham a saída do rapaz, enxergam adiante um bom pacote de rosquinhas. Meu texto está quase pronto, mas tenho algo mais importante a fazer. Puxo o celular para a foto da rosa e me levanto para pagar meu café. Ele vem sempre aqui?, pergunto para a moça do caixa. “Todo dia.” Posso deixar pago esse pacote de rosquinhas para ele? “Pode”, ela diz meio sem graça. Me sinto em paz, finalmente e saio empunhando firme a rosa suave.

É sábado de manhã e aquela rosa faz toda a diferença para quem passa por mim na calçada. Pouco mais adiante, vejo Rafael em frente a um bar. É minha oportunidade de avisá-lo que, quando voltar à padaria, terá direito a um bom pacote de rosquinhas: Deixei pago para você um pacote de rosquinhas na padaria, eu digo enquanto continuo andando. “Ah, não”, interrompe ele. “Eu prefiro um prato de comida.” Anh?! Ainda sem compreender tudo paro na calçada, abro a carteira e entrego a ele meus últimos cinco reais. Ufa!

Sigo leve para o banco, com a rosa na mão, perambulando pela calçada. Só bem mais tarde, na viagem, compreendi a história. Engenhoso, Rafael, parabéns! E obrigada. É claro que eu nunca o defendi de nada. Mas ele levou seu prato de comida com uma bela e simples rosa que, certamente, ganhou, também, de alguém.

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Sobre Marcia Savino

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Uma resposta para Uma rosa é igual a um prato de comida

  1. PAULO SILVA disse:

    TENHO QUE PRESTAR MAIS ATENÇÃO EM NOMES ,FOCAR MAIS,OLHO NO OLHO!!!ABRAÇOS

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