Muitos marimbondos mignons

Rio set 2013 013Picadas de marimbondos doem, mesmo quando eles são do tipo pequeno. Mesmo mordidas de marimbondos mignons doem no ato da picada. E, a quem interessar possa: coçam por dias. Vinte e quatro horas depois da picada, o local incha suavemente. Foi assim com o meu pé esquerdo no dia em que, correndo para atender ao telefone que tocou enquanto eu comia, enfiei meu pé no chinelo sem perceber que estava ali o delicado predador. Uivei no caminho.

Era meu pai, querendo saber como se salva um arquivo no Power Point. Antes disso, lanchando com meu marido na cozinha, olhando a esmo como olham às vezes os casais que fazem juntos cotidianamente as refeições, eu tinha dito com a minha costumeira exclamação: Ih, olha ali um marimbondo grandão! De fato, quase no teto da cozinha, na parede acima do fogão, alojava-se espertamente um marimbondo de quase três centímetros. Meu marido não se incomodou, nem com o bicho nem com o meu comentário, pois não se moveu. Eu mesma também não achei que devesse considerar mais do que inusitado ter um marimbondão quieto à noite na cozinha de casa. Somente mais tarde juntei os fatos.

No dia seguinte, dei um passeio no jardim, mas o tempo mudou com o vento e entrei. No segundo pavimento, pelo vidro da janela assisti a um espetáculo perto da cumeeira: uma revoada de zilhões de pequenos insetos atarantados zunindo em breves linhas retas, daqui pra li e de lá pra cá. Os dias se passaram e eu fiquei aguardando a quarta-feira, quando o jardineiro dá o ar da sua graça. Seu Hélio, hoje vamos limpar todas as casas e casinhas de marimbondos que estiverem por aí. Displicente, ele singelamente me apontou a cena: tranquilos em seus afazeres, alguns deles sobrevoavam a chaminé da lareira.

Viajei. Voltei cinco dias depois. Ao abrir a porta, a casa exalava um cheiro adocicado, quase gostoso, tipo mel. Eu conhecia aquele cheiro de não sei o quê. Era o mesmo que, cinco meses antes, eu sentira fortemente, também ao voltar de uma viagem. Desta vez, mais suave. A novidade eram as dezenas de insetos mortos sob a janela do banheiro; ao pé da luminária da escada; e, ainda em maior quantidade, no chão no entorno da lareira. Isso era estranho e o xerloque rolmes no cérebro de todos nós começou a entrar em ação.

É curioso como o fato de juntar os pontos tautologicamente – aprendi esta palavra na faculdade de História e só a estou utilizando agora, 30 anos depois, por favor, vá ao google – faz a gente compreender o significado das coisas mais improváveis. Anteriormente, andorinhas entravam em casa pela lareira, mas dias antes eu pensara, aliviada, que nunca mais encontrara esses delicados passarinhos estacionados na minha sala.

Fogo! Fogo na lareira! Avante, Seu Hélio! A chaminé entupida espalhou calor pela torre, fumaça por toda a casa e marimbondos em pencas a fugir por cima. Por duas ou três horas, insetos minúsculos vazavam pelo alto da casa. Primeiro enegreceram o topo da chaminé, depois, talvez porque não tivesse lugar para todos, começaram a voar para os altos galhos da árvore mais próxima, na calçada, fazendo bololôs negros parecidos com bombril. Visão interessante. De longe.

Acompanhei o processo com o jardineiro. As abelhas têm a rainha e marimbondos têm matriz, ele me diz, os outros vão onde ela estiver. Deve ter aí uns seis quilos de inseto, disse ele. Lembrei-me imediatamente do bichão na parede da cozinha. Dei-me por satisfeita com a brincadeira, fiz vazar o fumaceiro que defumava a casa, chamei os bombeiros que dizem tratar do assunto à noite, quando os insetos ficam mais calmos. Os bombeiros não vieram e meu marido, argumentando que já teve fazenda, me garantiu que a bicharada iria embora. Se fosse eu, não iria embora. Marimbondos se parecem talvez comigo, pois lá estavam no alto da árvore no dia seguinte, quando acordei. Insetos sobrevoaram a chaminé durante todo o dia. Antes das cinco da tarde, a árvore estava limpa. Parece que, em não tendo recebido a visita dos bombeiros, a matriz levou-os todos de volta para casa. Para a minha casa.

Viajei novamente, estou fora e não muito curiosa para saber o que me espera na volta. O certo é que, salvo cenário pior no meu retorno, terei que chamar um profissional para limpar a chaminé e extirpar o enxame, coisa que eu e o jardineiro não demos conta.

*

Escrever é reescrever e pontuar.

O resto é pensar, eu diria.

Anúncios

Sobre Marcia Savino

Oi, seja bem vindo/a e passeie por esta literatura de rápida leitura! Indique para os amigos e... volte sempre!
Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado . Guardar link permanente.

2 respostas para Muitos marimbondos mignons

  1. lourdes pires disse:

    muito engraçado. Remete coisas da infancia. Adorei.
    bj

    Curtir

  2. Anna Maria Castro Santos disse:

    Clima hitchcockiano…

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s