Crônica da Velha Senhora

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Ela tem 96 anos. Muita gente já a conhece, porque ela é um personagem. Mas não chega a ser novidade ter 96 anos. Hoje muita gente tem. Pelo menos, muito mais do que antigamente. Mas ela é tão particularmente improvável, que é quase um folclore – um personagem mesmo. Daí que a gente tem vontade de escrever sobre ela. Mas daí que também deixa passar a vontade, porque… se não for de maneira muito bem feita, quem quer saber da vida dos velhos?

Essa é uma velhinha baixinha, magrinha e de cabelos brancos. Dã… Que borda em ponto de cruz com perfeição. Mas então ela enxerga bem? Bem??! Melhor do que eu, com certeza. Ela lê os jornais sem óculos. Enfia linha na agulha, enfia a agulha nos mínimos furos das telas das toalhinhas que me faz comprar a cada vez que vem e nas quais capricha o nome dos futuros agraciados com sua modesta e divina obra que do lado do avesso é tão linda quanto. Você não borda tanto, né, minha filha, porque eu tenho muita variedade de linhas, senão eu te dava algumas. Eu não bordo nunca, tia. Mas não digo isso.

A tia é do meu marido; virou tia de todo mundo. Mas quem quer saber de ponto de cruz hoje em dia? Difícil escrever sobre essa velha senhora. Anacrônica. Atual a seu modo, pois vive no coração do Rio. Sempre me espanto de pensar numa velhinha dessas em Copacabana, que pega o metrô sozinha para ir ao Mosteiro de São Bento! Como será que enfrenta o movimento, o turbilhão, o frenesi, as gentes correndo, o barulho e as mudanças que faz a prefeitura que agora não a deixa mais descer do taxi na porta do seu prédio? O corredor é dos ônibus modernos, sai daí velha senhora que seu tempo é o passado, acabou.

Acabou nada! Se tivesse acabado, ela já estava enterrada. Está mais viva que muita gente. E acompanha as notícias, e sabe o que se passa, e tem opinião. Ô, como tem opinião. Questiona o progresso. Não sei que progresso é esse que faz as coisas pra não durar nada, pra quebrar logo e ter que jogar no lixo. A gente às vezes cansa desse tipo de pergunta que ela faz, completamente cheia de razão. A resposta é que o mundo anda pra frente parecendo mesmo que anda pra trás. Criança ou velho, em maior ou menor grau todos nós sabemos disso.

Mas o que me intriga – e até certo ponto, me dói – é ver essa mulher lendo atenciosamente a seção de cartas do jornal. Ai que dó que me dá vê-la agitar o jornal como que para provar sua verdade. Está aqui nas cartas, ela diz, um leitor escreveu hoje sobre isso. Leitor ou eleitor, tia, é tudo igual, penso. Mas não digo. A gente não diz certas coisas a uma idosa senhora que pensa. Ela parece ler o jornal com a mesma devoção com que reza. Esmiúça as seções, os assuntos. Demora-se com ênfase e não vê televisão.

Pra quê? Comecei a ver a novela, mas é tanta maldade, não quero saber de maldade. Eu também não, tia. Insisto com ela. Quero vê-la sentada, quieta, mas, à noite, ela prefere o bordado ou a leitura da Veja. Ela é velha. Velha mesmo, velhinha. Reza quando se deita e quando se levanta. Outro dia, me disse: Ih, hoje não é segunda-feira? Rezei a oração de amanhã. Avançada, tá vendo?

Saudável até os ossos, anda sozinha, toma banho sozinha, sobe e desce de uma caminhonete com desembaraço, levanta-se de uma cadeira quase tão serelepe como uma criança. Bem criada, é até hoje uma menina obediente, como diz. Jovem viúva de um casamento feliz, não teve filhos. Criou sobrinhos, tem afilhados. Recebo de sobrinho o que muita gente não recebe de filho, ela diz. Conta as mesmas histórias sempre, mas são tantas, que demoram a se repetir. Todo mundo gostaria de ser velho assim. E eu nem falei que ela come de tudo, de tudo! Mas ela tem um segredo, um segredinho, já saquei: Eu não posso me queixar, minha filha, mas, também… eu não me queixo! Fica a dica.

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Sobre Marcia Savino

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10 respostas para Crônica da Velha Senhora

  1. Martha Elisa T disse:

    Linda crônica, linda a musa inspiradora. Bjs

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  2. Juliana Saraiva Mariath disse:

    Que bela homenagem… Obrigada por escrever tão bem sobre essa tia mais que querida por todos. Ela já era uma idosa quando eu nasci e está presente na minha vida até hoje.
    Beijo

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  3. ligia pereira nunes disse:

    tive 4 Velhass Senhoras na minha vida.Minha mãe e 3 tias que viveram até quase os 100anos.foram tão maravilhosas,viveram uma vida tão plena que deixaram um vácuo dificil de ser preechido.A saudade dói.Aproveitem tia Léia,curtam adoidado ,gostaria de ainda estar fazendo isso.beijos,Ligia

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  4. Lari disse:

    Adorei Marcia! Viva a tia Lea!!

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  5. Myriam Bohrer disse:

    Adorei, Márcia! Muita saudade dessa velhinha querida, tia, amiga, mãe de todos nós. Tia Léa é uma legenda. Você a retratou muito bem! Beijos!

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  6. Nina Pimenta disse:

    Tia Léa é uma fofura de pessoa… Não foi a vida toda assim tão magrinha… me ensinou a jogar paciência quando criança. E aparava todas as minhas bermudas e saias jeans desfiadas, quando a moda era deixar todas as linhas aparentes. Andava pela casa em Vila Isabel com aquele fio do telefone gigante… Eu sentava na grade daquelas janelas e ali passava minhas férias no Rio… uma pena a perda daquele apartamento… aquela banheira… aquele banheiro que é quase maior que o apartamento de Copacabana… Minha tia bisa tia Léa!

    Esse álbum tem umas fotos dela!

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    • Gustavo pereira dos Santos. disse:

      Tive a sorte de ter quatro mães: Olívia, Vovó Glória, Vovó Cacilda (minha madrinha e mãe da Tia Léa) e a Tia Léa. Morei com ela um bom tempo e sempre estive perto dela, mesmo quando distante fisicamente.
      Parabéns, Márcia, pela inspiração e realização desta excelente crônica, uma quase biografia.
      Um abração,
      Gustavo.

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  7. Martha d'Abreu Pereira dos Santos disse:

    Marcia, adorei! Parabéns!
    Tia Lea é uma lenda! E você como sempre muita inspirada nas suas crônicas que eu gosto muito! Apenas uma pequena correção, digamos, histórica…. tia Léa não frequenta o Mosteiro de São Bento, mas o Convento de Santo Antonio, onde é também queridíssima dos freis e segundo eles mesmos, ela é “da casa”!… Certa vez, uma pessoa se dirigiu a ela dizendo que queria ver o túmulo de Frei Clemente.Kesselmeier. Ela foi falar com um Frei e este prontamente lhe disse: “A senhora é da casa, pode acompanha-la ao túmulo, à vontade”! ahahaha E ela tem histórias pra contar, não é?…. Pede a ela pra lhe contar da vez que ficou presa no elevador do convento. Vai dar uma crônica e tanto! rsrsrs
    Beijo,
    Martha

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    • Gustavo pereira dos Santos. disse:

      Queridas Marcia e a Martha,
      A Tia Léa é o melhor exemplo de vida que conheço. São inúmeras páginas belas e, se ela começar a contar, hoje não vai terminar.

      Bisous,
      Gustavo.

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    • GUSTAVO SANTOS disse:

      O dia não vai terminar, se a Tia Lea começar a contar as muitas páginas belas da sua (dela) linda vida.

      Bisous, Gustavo.

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