Um indiano em Nova Iorque

NYC.november2013 227

“Good morning, sir!”. Digo assim ao indiano de turbante a setenta centímetros de distância da minha pessoa, ao descer do prédio em mais uma manhã para bater pernas em Manhattan. Há dias eu e meu marido cruzamos com ele, que refaz a escada em que piso antes de por o pé na rua. Eu o assisto trabalhar quando passo: ele revira uma massa de cimento e areia para refazer o lobby do edifício em Tribeca. Usamos o elevador de serviço, porque o prédio está em obras. Eu desconheço os códigos, quem cumprimenta quem, e na dúvida não falo com ninguém.

Depois de cinco dias, ocorre que o indiano aparentemente grisalho está a pequena distância ao nosso lado. Nesta manhã ele faz menção de nos ajudar a levantar da escada onde nos sentamos for a while; uma menção contida em milésimo de segundo, praticamente imperceptível, como se não pudesse ou não ousasse. Ele não pode, ele não ousa, mas eu vi. Vamos deixar a escada da portaria do prédio e ganhar a cidade, mas o indiano está tão perto que eu quebro o silêncio e digo-lhe de forma plenamente audível em tom amigável e com máximo respeito na voz: “Good morning, sir”. Sinto-o relaxar supreso, enquanto saímos a andar pela calçada, eu e meu marido.

Mas sou criança, viro-me para trás para vê-lo, porque sinto ainda a onda que me prende à escada. Os olhos do homem me acompanham e, sob o turbante, quase saltam da cara. Eu já vi aqueles olhos, eu nunca vi aqueles olhos, eu nunca vi tanto amor nos olhos de uma pessoa, eu já vi o amor nos olhos, os olhos e o amor das pessoas. Enfim: que olhos de amor o indiano trabalhador colocou em mim! Levei, com este pensamento, meus pés sobre a calçada da rua gelada e assim foi durante todo o dia, os seguintes e halloween afora.

A cidade está no mesmo lugar em que sempre esteve, eu é que estou fora do lugar. As abóboras de livro de história se encontram em toda parte e em todos os tamanhos como eu não sabia. Não poderia saber. Depois de ver as abóboras redondas como de filme nas portas dos prédios, nos balcões ou como enfeite de mesa de restaurante, ainda dei a sorte de ver uma plantação delas. Sorte?! Pode ser. Elas rastejam na terra da mesma forma que na cidade: redondas, de amarelo forte quase laranja e, alinhadas nos canteiros, enfeitam o campo em diferentes tamanhos.

Good morning, sir! Ali iniciei esta crônica, lá se vão quase duas semanas – mas não a escrevi nem fiz fotos. Guardei o tom da saudação ao indiano submisso e trabalhador como um mantra que me faria abrir, oportunamente, o texto. Mas os dias se sobrepõem uns aos outros e as emoções que nos formam também. Volto ao Brasil junto com a prisão dos mensaleiros e o que me traz efetivamente a escrever é o acento agudo no primeiro nome da simpática juíza Cármen Lúcia, como está grafado em todos os jornais.

Gosto de acentos, justiça e jornais. Na verdade, gosto mais ainda de vírgulas e pontos do que de acentos, porque eles são definitivamente importantes para o fluir de um texto. Da justiça que amo, repito o que sei e aprendi na escola: “Good morning, sir!”. Dos jornais, bem, diariamente, preciso comer as letras entre o pão e o café da manhã. Nesse sentido, o jornal é o melhor recheio, mas leio-o cotidianamente entre a fruição e o desdém.

Explico. Se conseguir. Como em qualquer leitor, o encontro do olho com as letras garrafais ou minúsculas impressas nos jornais, é motivado pelo assunto. Ou, por detalhes, como no caso do acento da ministra. Chamaram-me as belas mechas do cabelo branco de Cármen na página de cultura, mais do que o tema – Santa Repetição, Batman! – das biografias. De resto, atesto: de relevância e irrelevância são feitos os jornais. A mesma matéria das crônicas, diga-se.

Rabisco aqui a página catando as letras no teclado com velocidade, enquanto alinhavo a improvável correria dos dias. Mas eu queria mesmo era escrever sobre qualquer um dos trending topics sem dar na cara que estou procurando alguns que caibam no olhar intimista desta escriba. Talvez outra hora. Por ora… “Good morning, sir!” Olhando daqui, agora à distância – e pela relevância – esta talvez tenha sido uma das coisas importantes que fui fazer em Nova Iorque.

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Sobre Marcia Savino

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7 respostas para Um indiano em Nova Iorque

  1. Joana Carelli disse:

    Fez valer mais ainda este cumprimento justo e humano quando compartilhou conosco. Que suas escribas possam te levar pra passear muito pelo mundo , com seu querido marido, para escrever muitos textos assim para dias de chuva, noites compridas, e recheios para nossos cafés da manhã. Grande abraço, saudades e visitarei aqui mais vezes…grata!

  2. Sylene Savino Rocha disse:

    Te admiro por isso:. pela sua simplicidade, e o carinho que você tem com as pessoas, mesmo que não as conheça. bjs. Te amo

  3. ligia nunes disse:

    teus escritos são sempre mamão com açucar!
    Uma delicia de leitura e sim,tu brincas com as palavras de maneira gostosa .
    MAIS!!!!

  4. O indiano, me lembro bem dele: devia ter uns sessenta anos ou mais, moreno, forte, não muito alto, mas o que sempre me chamava a atenção eram duas coisas: sua energia trabalhando e seu porte altivo, com uma dignidade quase imperial. Que Deus o conserve assim por muitos anos, imigrante e operário anônimo, ajudando a reformar uma cidade badalada, apressada, iluminada e sempre engarrafada.

  5. Epaminondas Prata correia disse:

    A simplicidade é algo muito complexo. Por isso gosto de sua crônica.
    Quanto ao indiano deve ser alguém especial, ou não teria lhe prendido a atenção e os sentimentos.
    Fiquei feliz em ler, pois assim descobri que Nova York tem algo de bom………..
    Parabéns

  6. Sylvia Saraiva disse:

    Linda crônica! Maravilhosa atitude! É impressionante andar pelo Rio de Janeiro, dar bom dia às pessoas e ter de volta um olhar surpreso, mas não de amor ou gratidão. É mais como se você fosse um ser de outro planeta. Que surjam mais bons dias na vida das pessoas!!

  7. S. Quimas disse:

    “Rabisco aqui a página catando as letras no teclado com velocidade, enquanto alinhavo a improvável correria dos dias.”
    Sublime!!!

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