Copacabana me engana

 

Imagem

Passei o ano novo de roupa velha, como de costume. Mas, desta vez, as vésperas da meia-noite troquei a desbotada camisetinha marrom por uma blusa branca de nervuras recém-chegada ao armário. Fiz isso para descer à praia e ir ver os famosos, badalados, propalados e propagados vinte minutos de fogos em Copacabana. Capricho nos adjetivos para tentar dar conta do acontecimento que é exatamente o que a gente imagina que seja, mas finge que não acredita. Caso contrário nem sai de casa e vive o último dia do ano como se fosse o que realmente é: um dia a mais no ano, um dia a mais na vida, como o anterior e como o próximo, se houver.

Aos primeiros minutos na praia de Copacabana, tenho que admitir que os fogos de Geribá que vi de bem longe uma vez, do breu de Tucuns, praia desabitada da Búzios recentemente alagada, impressionam mais. Na verdade, o brilho dos fogos era uma visão roubada das luzes da praia mais famosa do lugar. Tive que vir a Copacabana, iluminada dos pés à cabeça, para saber que a imagem dos verões em Tucuns está bem viva na minha mente.

Chegamos à praia, metaforicamente falando, porque a areia está impenetrável. Ali, na borda do asfalto, nos encostamos na grade do posto de coleta seletiva. Não conte a ninguém, mas parece que passei o réveillon na boca do lixo. Calma, estava quente, mas não cheirava mal. Meu marido faz uma conta esquisita: soma dois milhões de pessoas juntas a 36 graus centigrados cada uma, quando a temperatura agradável ao ser humano fica em torno dos 22 graus. Conclusão: o bafo quente vem da massa humana. Um tipo de calor que não sinto há tempos.

Não que o espetáculo seja ruim e certamente há quem se encante. É que visto assim, do chão, ao vivo, praticamente não há espetáculo. Os fogos são de uma mesmice sem dó, pelo menos no Posto Seis. A grandeza do evento é que é bacana. E é bem possível que as balsas em frente ao palco principal tenham lançado fogos mais emocionantes, mas isso não me favorece a experiência. Chuvas de luzes espalhando-se no céu de forma previsível durante o tempo previsto pela prefeitura, foi o que vi.

O melhor de tudo foi ver o mar de Copacabana. Um mar de gente branca, digo, de branco, povoando a Rua Souza Lima e a Nossa Senhora de Copacabana, no refluxo da meia-noite e vinte. Achei curioso entender que todos tiveram a mesma ideia que a gente: descer para ver os fogos e depois retornar para casa, para a festa, para a vida, para a rotina. Sei lá. O mar de gente de branco que tomava a praia, ondeava as ruas de forma bonita; pensei na ideia de “multidão ordeira” que hoje em dia aparece de vez em quando nos jornais e fui, com sorriso no rosto, dormir em paz.

Dia seguinte, retorno à Barra. Papo vai, papo vem no taxi, o rádio traz a notícia. Parece que houve um tiroteio na Nossa Senhora de Copacabana, parece que teve gente ferida, parece que teve gente morta, parece que a origem de tudo foi briga de marido e mulher. Ué. Tempos modernos. Em seguida vem a voz do secretário de segurança e diz que hoje está melhor do que ontem. Como sou da opinião de que todos têm razão, dependendo do ponto de vista, dou crédito a ele. Até porque, é para São Beltrame que se reza, muitas vezes.

O taxista tem soluções razoáveis para o trânsito da Barra, a essa hora do ano de ruas ensolaradamente lindas e completamente vazias. A gente sentencia que o razoável nunca é a opção dos políticos, que preferem resolver problemas sob o signo da visibilidade. Eu mal tenho soluções para a minha vida. Parei de fazer balanço e lista de desejos; estou simplesmente procurando ser um pouco mais brincalhona com a vida e mais séria comigo mesma. Acho que está de bom tamanho.

Anúncios

Sobre Marcia Savino

Oi, seja bem vindo/a e passeie por esta literatura de rápida leitura! Indique para os amigos e... volte sempre!
Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , . Guardar link permanente.

5 respostas para Copacabana me engana

  1. Saí de Copacabana para passar o ano em Nova Friburgo (uma “tradição” de quase dez anos). E tive uma surpresa: deu para ver parte dos fogos lá de casa, no Sans Souci. Está bom, não é nada espetacular, concordo, mas a temperatura estava um show!

  2. Joana Carelli disse:

    Faz tempo que Copacabana não me engana, mas não posso dizer de forma alguma que um ano novo destes vou voltar lá e ver os 20 minutos. A compania vale muito, quem sabe estarei mostrando ao meu filho este evento carioca. Mas gostoso mesmo foi voltar pra Friburgo e depois de verão em Olinda ou Rio de janeiro, voltar pra este frescor…em breve moraremos na Rua onde vcs moram, será que só vamos nos ver quando seremos vizinhos ? Grande abraço e agradeço a delicia de ler sua cronica, mas ser brincalhona com a vida é coisa que quero tb ! Beijos

  3. Marcia Cypriano disse:

    super bem escrito, marcia, esse ano levei meu namorado frances e foi so encanto! o mar de roupas brancas e fenomenal sim, a energia que propaga e maravilhosa.. o chato e pegar o metro para voltar para casa, o chato e tentar descer para a beira da agua e ver que tanta gente montou cercadinho para ficar a vontade e dane-se o mundo!! mas de tudo copa nao me engana!!

  4. Maria Saraiva disse:

    Adorei sua cronica, Marcia, mais uma vez… e quanta inveja sinto por isso, mas ainda bem que não me mata. Mas em tempos idos morei no Lido, e por tres anos não perdia a queima de fogos, na epoca, bem inferiores aos atuais. O que compensava, aos nossos olhares, era a famosa cascata do Edificio Meridien, na verdade um show a parte que a todos paralisava, e assim eram todos os anos até que acabou. Hoje, não me animo a enfrentar Copacabana, ainda mais com ” bafo quente “, pois prefiro mesmo o frescor e a energia das minhas montanhas. Copacabana, agora, só mesmo para ver Léinha…e obrigada por esse presente!! Bjs…

  5. Cilea disse:

    Muito boa , mas tendo a discordar:eu adoro. Não vou há muitos anos mas ainda me lembro da emoção.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s