Chute que o João garante

Não, não falo de futebol. Eu me refiro mesmo aos problemas do Brasiu – dito assim, com esta grafia, mais próxima da realidade. Dos problemas do mundo não falo aqui, que o mundo é muito grande. Mas, no Brasiu, estou convencida: o problema é o varejo. É muito probleminha tratado como problemão e muito problemão tão grande que mal se vê todo o problema, quem dirá a solução. Para resolvê-los a nação segue tentando, a começar pela emissão de opiniões de todos os matizes na rede ou onde mais tiver amplificador. E tome bola na trave.

No Brasiu, o que vale é o chute. Faz tempo, andaram martelando na televisão que a gente, por brasileiro, não desiste nunca. Nunca explicaram muito bem: desiste de quê, cara pálida?! De tentar? Vamos tentar fazer uma pesquisa? Vamos tentar divulgar? Vamos tentar transpor o São Francisco? Vamos tentar resolver? Tentativas por si não resolvem, sabe-se, a menos que balancem a rede.

Mas a rede de esgoto que não há, o lixo fora do lugar, o estupro “justificado” pelas estatísticas, a truculência da polícia com o cidadão comum e com o incomum também, a violência no trânsito, a desatenção no atendimento ao turista, o baixo nível na tv, o efeito estufa, e até esse mísero, crônico, viral e infectante probleminha – o fato de sermos todos governados e administrados por pessoas ligeiramente desonestas e inclinadas à corrupção – estariam reduzidos a níveis controláveis se fossem tratados no atacado.

Como acho que problema se resolve com inteligência e não necessariamente com muito dinheiro – pelo contrário, soluções que envolvam menos dinheiro me interessam mais – acredito em solução no atacado. Há o que poderia ser resolvido em 10 ou 20 anos. Bastava para isso criar uma nova geração de brasileiros focados no bem comum. Fertilidade não é o problema; brasileirinhos brotam por aí aos borbotões.

Eis aqui minha receita: pega-se os brasileirinhos e aplica-se a esses futuros cidadãos – a serem convertidos em gestores ou funcionários públicos – gotinhas diárias de boa educação. Que aprendam a matemática e o português castiço, que sejam obrigados a plantar arvrinhas na escola e a elaborar manifestos pró meio ambiente para apaziguar o medo nascente de terem vindo habitar um planeta intoxicado. Balé e natação, claro. Tudo isso muito bem. Esqueçam a reforma política cheia de conchavos, postergações vergonhosas e blá blá blás pseudo-democráticos – não vamos precisar dela.

Preparemos novos brasileiros para uma vida pública decente. Ao invés de inculcar máximas perdidas gastando milhões em propaganda, vamos adicionar valores morais e éticos. Aula de vida pública, aula de boa política, aula de consciência coletiva, aula de aprimoramento prático em respeito, aula de serviço ao próximo. E provas, muitas provas de que os brasileirinhos estão se tornando gente de bem. Resumo da ópera: alunos aprovados neste currículo e aprimorados por um tipo de Residência Pública estariam aptos a serem candidatos a políticos e a funcionários públicos.

É claro que é fantasioso o discurso, mas nada me impede. E depois, acho minha opinião tão inócua quanto meu voto. E eles nos empurram o voto – essa mísera moeda desvalida. O sistema político depende dos políticos e dessa balela que nos fazem engolir regularmente: o papo de que votar é muito importante e essa empulhação toda do voto consciente. Para mim, o voto é uma arma com bala de festim; pode até fazer algum estrago, mas é raro. Até onde eu sei, é pelo voto que os Sarney seguem chupando o sangue do Maranhão.

Vamos nos voltar para as escolas e resolver no atacado? Se pegássemos todo o dinheiro do mundo (do mundo, não, que é muito grande), se juntássemos todo o dinheiro disponível doBrasiu e criássemos uma nova geração de brasileirinhos, as cidades não teriam papel de bala no chão, nem esgoto a céu aberto, nem obras malfeitas, nem tantas mortes no trânsito, nem gente com fome, nem gente fedida, nem gente fodida, nem burrice estabelecida, nem tanta coisa ruim. Estaria viva a inteligência. Do bem, diga-se (é bom avisar).

Bacana, né? Mas não sei se vinga. Por melhor que seja uma solução, por mais abrangente e eficaz, ninguém aceita uma ideia que não seja nova. Assim como a palavra cansada é descartada por ser tomada por “batida”, ideia velha – mesmo boa ou, ainda, a melhor – não tem valor. É como o pobre, sujo e mal vestido, que se esgueira em ambiente de rico: Ih, lá vem essa gente sem educação.

Ufa! Como dizem nas altas rodas: Essa conversa me deu fome, vamos a um tailandês?!

Obs: “Chute que o João garante” é uma livre alteração de um bordão do último governo da ditadura – “Plante que o João garante” – relembrado agora em tempos de “pacificação” da Favela da Maré, na Vila do João (o próprio), e de debates sobre os 50 anos do golpe militar. Slogans, como se sabe, são slogans, e raras vezes querem dizer aquilo que imprimem.

 

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Sobre Marcia Savino

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Uma resposta para Chute que o João garante

  1. lourdes pires disse:

    É isso aí, precisamos de um BRASIL COM DIGNIDADE, COM EDUCAÇÃO. E RESPEITO.

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