No país do futebol, a Copa de tapumes

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Alguns brasileiros hão de concordar comigo: com a Copa do Mundo acontecendo lá fora, era mais fácil se animar com ela. Especialmente para os que não ligam, não entendem, não estão nem aí, não sabem para que lado rola a bola, aliás, mal enxergam a minúscula bola no campo, do time só conhecem o David Luiz (Neymar não conta), etc. Essas pessoas – nós – somos a exceção que confirma a regra de que o Brasiu* é o país do futebol. Mas agora que puseram a Copa do Mundo dentro do nosso campo está mais difícil embarcar na viagem.

Pra começar uma questão ligeiramente semântica: a Copa é do Mundo e sempre foi até a hora em que for dada a partida aqui. No nosso imaginário, isto ainda significa lá fora, out, uma coisa diferente, outro país, mais civilizado. Agora plantaram a Copa no nosso quintal justamente em ano eleitoral. Fica difícil. Mas a gente sabe, sempre foi assim e já era antes: o Brasiu nunca foi um país fácil mesmo. Até o nosso rei negro, Joaquim Barbosa, brasileiro vencedor pela educação (exceção, não a regra), teve que sair pela porta dos fundos. Fundos esses, diga-se, que não são os mesmos que foram utilizados na construção de estádios e aeroportos malacabados confirmando o fato de que o Brasiu* não é um país sério. Em se tratando desse tipo de fundos, corrijo-me: o país é sério e até mesmo profissional, só depende do bolso de quem.

Mas nós, os que não ligamos para futebol, também temos coração. E, especialmente, temos um tipo de paixão que se mostra, ano após ano, década após década, século após século também, rara no topo da pirâmide social: o amor à pátria. Certo ou errado, ficou combinado que de quatro em quatro anos (período coincidente com as eleições para presidente), vamos exacerbar esse amor reprimido, contendo-o no brilho espetacular de um ou outro par de pernas, um chute e uma bola na rede. Fabrica-se, assim, o orgasmo nacional.

Tenho pensado nessa frase, “a pátria de chuteiras”. Fui pesquisar – na minha memória mesmo – é do Nelson Rodrigues? Bem que eu achei que o autor era um craque. Por mais que a imagem da frase seja futebolística, a leitura que faço é da contenção. Nosso amor cívico reduz-se à performance dos craques da bola, também porque, embora tenhamos cidadãos de valor no país, os que se embrenham na política, em sua grande maioria, envergonham a nação. A chuteira é, ao mesmo tempo, um avanço e uma redução: potencializa o chute e arrocha o pé do moleque.

Antes, a Copa era longe, dava mais gosto de sonhar. Era uma anestesia boa, um gozo legítimo a que todos se davam o direito. Era gostoso ver as ruas enfeitadas, olhar o verde e amarelo bombando. Era o nosso jeito de tomar coragem de vibrar e dizer: eu amo esse país, eu amo essa nação, amo esta pátria, patriamada, Brasil**! Pra isso nem era preciso ser amante do futebol. Agora, não. A gente tem que se dar a própria anestesia, se quiser curtir.

Tem que esquecer o trânsito, as falcatruas, os tapumes. Tem que sofrer os números dos investimentos, mesmo se não quiser saber. Os olhos veem, o coração sente e não há como não pensar em todo o atraso e pobreza que nos circunda assistindo aos gastos monumentais em estádios incompletos. E ainda inventaram de batizar a razão da Copa aqui por essas bandas com uma palavra que no país do futebol soa irresponsável: legado. Isso já existia no dicionário? De legado mesmo ficarão as palavras sujas e mal ditas. Será que só o esporte nos torna patriotas?

* Escrevo assim mesmo, em uma grafia mais próxima de nossa pobreza e realidade.
** Neste caso, vale a tentativa.
Foto da internet: crisguerra.com.br

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Sobre Marcia Savino

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