E se dermos mais segurança, ao invés de pedi-la?

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E se, ao invés de pedir mais segurança, a gente pensasse em dar mais segurança? Parece estranho? Mas foi isso mesmo que você leu. Dar mais segurança parece esdrúxulo? Podemos pensar em dar segurança da mesma forma que damos (ou tentamos dar) segurança aos nossos filhos. Sempre procuramos dar mais segurança aos nossos filhos, certo? Com a sociedade podemos fazer o mesmo. Queremos sempre mais para nós, os que comemos pelo menos três vezes ao dia. Não podemos dar um pouco mais de segurança a quem está a nossa volta? Sim, podemos. Queremos? Nem sequer pensamos nisso, porque “está fora do meu quadrado”. Que quadrado, cara pálida?

Leio nos jornais que vinte pessoas cercaram três adolescentes de 15 anos às 23h30 da noite numa rua familiar da Barra da Tijuca, na saída de uma grande Festa Junina promovida pela igreja do bairro. Conheço a rua; por acaso, é a minha. Conheço a Festa Junina: é grande, bem organizada, comunitária; diversão para as famílias, para a comunidade, para todos. A igreja já faz a festa e proíbe bebida alcoólica, não tem como cuidar do que acontece do lado de fora, onde a galera jovem literalmente entorna. E, claro, joga o lixo no chão.

Tá vendo como a gente precisa de mais segurança? Esse é a leitura corrente. Mas os bem nascidos, digo, os bem alimentados e letrados, falamos tanto em inovação, então: está na hora de inovar em segurança. Falta segurança? Claro que sim, falta demais, pra todo mundo. Faltam seguranças? Não, aí não. Nem é bonito de ver o exército empunhando armas nas ruas durante o mundial, embora uma certa sensação ilusória até possa parecer reconfortante. Faz falta mesmo é nos sentirmos seguramente seguros.

Paro o carro na porta do teatro, na Gávea, para ver a peça Os Javalis e embico no estacionamento às oito da noite de domingo. Quem vem me atender não é um segurança uniformizado, mas um homem trabalhador comum que tem o rosto marcado pelo sol. Nada digo, mas faço cara de interrogação quando vejo o preço: vinte reais antecipados para estacionar o carro? Não, senhora, para quem vai ao teatro é dez. Relaxo o rosto. Aqui ainda tem um pouco de humanidade, ele diz. Abro, então, o meu melhor sorriso. Senhor, não vou lhe desejar boa noite: vou lhe desejar uma ótima noite, ótima semana e tudo de bom no seu caminho. Pra senhora também. E o sorriso dele se alarga pelo corpo, enquanto me movo com o carro.

Sentir-se seguro é o contrário de estar retesado. Sei que o pessoal tem medo e eu também tenho. Mas por esta semana, sinto-me protegida. Na atitude daquele homem, recebi segurança. Ele me deu de graça. Nada me cobrou, nem uma cara amarrada que eu tivesse que destrancar com sete chaves. Apenas fiz igual e retribuí. Pense bem, desamarrar a cara é dar segurança. A coisa anda de um jeito que sorriso no rosto é inovação.

Dar mais segurança não é só parecer ingênuo e sair por aí distribuindo sorrisos, obrigados e por favores com cara de amigo. Se bem, que mal não faz, e aí, pense bem, já contribui para a paz. É igual àquela história do colesterol alto: não basta diminuir o colesterol ruim, é preciso aumentar o bom. Dar mais segurança é dar. O que podemos dar? Roupas e brinquedos usados? Ok, é um começo. Mas e o conhecimento? Perto de tudo o que temos, de tudo o que recebemos desde que nascemos – os bem alimentados – é muito pouco. Hein? Não escutei o que o seu coração quis dizer, pode escrever nos comentários abaixo?

A impessoalidade da cidade grande é, quase sempre, um tigre de papel. Somos todos gente, indo de um lugar ao outro, com determinado objetivo, com certos impedimentos grandes ou pequenos, dependendo do momento. Há algo mais que pode ser feito. Algo que possa fazer a diferença na vida de alguém. Estamos acuados, mas deveríamos partir pra cima. Pichar muros e exibir faixas alertando da incidência de assaltos no local? Ok, mas podemos e, principalmente, temos que fazer mais. Depositar todas as nossas esperanças no frágil poder do voto, nas passeatas minguadas ou não, reclamar que já pagamos impostos – isso é muito pouco para o tamanho do problema. Exigir? Gritar basta? Ora, francamente! Apelar para São Beltrame?

Os milagres que esse santo tinha que fazer, já fez. O que vier agora, é lucro. Porque Beltrame é só um homem que faz o que tem que fazer sem dizer “prendo e arrebento”. É seu modo de fazer com sorriso no rosto. Havemos de olhar em volta e perguntar: onde tem alguém precisando de mim? Não tenho tempo, mas onde tem alguém precisando de mim? Não tenho tempo, mas como posso ajudar? Não tenho tempo, mas como posso contribuir? Essas perguntas, respondidas com o coração, ajudarão a nos fazer doadores de paz. Então, o que você acha: dar segurança é possível? A dita anda tão escassa que um mínimo, você sabe, faz a maior diferença.

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Sobre Marcia Savino

Oi, seja bem vindo/a e passeie por esta literatura de rápida leitura! Indique para os amigos e... volte sempre!
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