Nós, mulheres, e nossas unhas

Nós, mulheres, padecemos de alguns males diferentes dos outros seres humanos. Ir à manicure regularmente é um deles. Pra mim, pelo menos, sempre foi um suplício ficar de mãos estendidas por, no mínimo, meia hora para sair de lá com as pontas dos dedos pintadas e brilhantes. Agora pelo menos, em alguns casos, estamos livres da obrigação de marcar esse horário na agenda, porque há lugares em que é possível ser atendida sem marcar.

Mas aí… você não sabe se a manicure é boa ou ruim, rápida ou lenta, faladora ou calada, gente boa ou um porre, atenciosa ou não. Prefiro manicures rápidas, sempre. Fora isso, boa para mim é aquela que não me corta nem de levinho. Mas há algumas que são excepcionais: excepcionalmente boas ou excepcionalmente rápidas. Conheço a Neia, a quem chamo de “a melhor manicure do mundo”: rápida e perfeita, ela faz pé e mão em exatos 60 minutos. Pena que, me dividindo entre duas cidades, meus caminhos e horários não têm cruzado mais com os dela.

De tanto odiar a função, passo o tempo driblando o tédio, mesmo depois de escolher – quando posso – as manicures rápidas. Pra começar, costumo desligar os ouvidos, pois odeio papo de salão. Quando não quero ou não consigo aproveitar o tempo com meus próprios pensamentos, leio Caras. A sensação de ler Caras no salão é dúbia: enquanto olho as fotos, vasculho as idades dos personagens e analiso os vestidos, parece entretenimento. Mas quando fecho a revista e a moça ainda está lá terminando a unha, o gosto é de comida estragada. Mas aí, já comi.

Ultimamente tenho preferido estabelecer um momentâneo relacionamento com a profissional que me trata. Como, pela ojeriza de marcar hora para o suplício, não sou fiel a nenhum estabelecimento, meço a temperatura da sessão pelos seus primeiros movimentos e utilizo o papo com manicures desconhecidas como forma subliminar de evitar os bifes. Funciona, mas na vida não se pode ter tudo. Normalmente, quando a manicure é rápida ou boa, chego em casa com o esmalte cheio de bolinhas. Ou ela é tão profissional, que não me dá a mínima atenção.

Mas hoje, precisando fazer pé e mão em cima da hora para um compromisso amanhã, me preparei para o que quer que fosse. Eis que encontro uma profissional dedicada; ela mesma de unhas grandes, lixadas e limpas. Uma raridade. Salão vazio, vejo ao longe o suporte de revistas, penso em pedir uma. Ato seguinte, desisto e já estou conversando com a Ju. Suas mãos são bonitas e tratadas; e o manuseio do alicate, preciso. Sorte!

Minha pergunta inicial é sempre a mesma: você trabalha há muito tempo aqui? Não. A Ju faz unhas em domicílio de segunda a quarta, mas antes trabalhava num restaurante a quilo. Ju capricha no tratamento, sinto que minhas cutículas estão delicadamente indo embora. Com a voz calma ela começa a me contar porque saiu do restaurante; eu me interesso e sigo perguntando. O restaurante, um dos mais antigos da cidade, não é um primor de higiene, pelo contrário. A cidade é pequena, ela me diz o nome. Eu caio pra trás: todo mundo vai, todo mundo conhece.

Eis o relato: <em>Me colocaram para fazer a salada. Eu era nova na casa. Um dia eu estava lá lavando a alface, chega outra funcionária e pergunta o que eu estou fazendo. Lavando, digo. Mas não é pra lavar, não. Como? Tomate, nada é lavado. Os pratos até são esterilizados, mas o restaurante não tem nenhuma higiene. </em>Mas se a comida não é, o que adianta?, pergunto. <em>Pior são os ratos. </em>Ratos? <em>Têm muitos; eles botam veneno à noite e no dia seguinte tiram o rato morto da cozinha. </em>Penso que a moça não sabe que está falando com uma jornalista. E a Vigilância Sanitária? Parece que eles compram, ela me diz. A conversa tem outras revelações cabeludas, mas acho melhor não contar aqui.

O tempo passa e, quando olho no relógio foi-se quase uma hora. Simplesmente abomino gastar mais de meia hora fazendo as mãos, mas desta vez me rendi. Como o Rei Shariar, em As Mil e Uma Noites, entretive-me com a história e não vi a passagem do tempo. Não percebi que a Ju era ótima, mas lenta para os meus padrões de impaciência. Pensando melhor, eu é que dei linha na pipa, já que o meu pé ela fez rapidinho. E bem. Mas não é que eu estou em casa com o esmalte da mão cheio de bolinhas? Ju, me aguarde, vou voltar.

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Sobre Marcia Savino

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2 respostas para Nós, mulheres, e nossas unhas

  1. Sylvia Saraiva disse:

    Ótima como sempre!

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  2. Lourdes Souza Pires disse:

    Adorei. Bem real. Essas manicures sabem de tudoooooo. kkkk
    Sábado conheci uma poliglota. chic, né.
    Bj e sucessos.
    Lourdes Pires

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