Mad Max: pelos olhos de Charlize

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Não assisti a nenhum dos filmes que antecederam o último Mad Max. Na versão atual, fica claro que o herói passa o bastão a uma heroína. Seria ótimo se o filme se chamasse Furiosa, nome da personagem de Charlize Theron, em excelente interpretação e em cujos olhos, pessoas como eu se ancoram quando cedem ao gosto do marido e se dispõem a acompanhá-lo ao cinema. Porém, avisei logo: se eu não gostar ou se ficar muito impressionada, saio da sala e vou dar uma volta no shopping.

Detesto filmes brutos e detesto filmes masculinos com muita luta e pouco drama, mas de vez em quando vejo alguns. Por mais ostensivo que seja, mal presto atenção ao chamado da mídia, e muitas vezes não sei mais do que o título do grande blockbuster da hora. Assim cheguei a Mad Max e sua paisagem alaranjada. A abertura deve ter sido feita para fisgar os admiradores da franquia, com o impacto das cenas violentas protagonizadas por seres estranhos e pelo mocinho, claro. “Moção”, digamos.

Mas eu gostei do filme. E por quê? Não apenas porque mulheres lideram o enredo. Mas porque mulheres lideram o enredo e provocam aquelas lutas que extasiam os homens, dando a eles a chance de exibirem o seu vigor, enquanto buscam obstinada e corajosamente uma coisa chamada esperança. Hope. Há um inseto chamado, no Brasil, de esperança: é um bichinho verde. Pois naquele ambiente desértico de Mad Max, as mulheres devidamente lindas, rumam para o oeste, em busca do passado verde, numa tentativa de resgate.

Não conseguem. Mas quem elas encontram? Mais mulheres. Que guardam o saber ancestral, que têm sementes na bolsa e que, quando morrem, exibem um pacificado sorriso em meio à face talhada de rugas. É lindo. Quando todos retornam para a batalha final – brilhante ideia do único homem do grupo, Max, que para isso se inspira na desesperança encontrada nos olhos de Furiosa – e que olhos tem Charlize! – as quatro parideiras saem do escudo de cada estonteante beleza e tornam-se brilhantes na luta do bem contra o mal. O naipe é completo: ruiva, loura, mais clara ainda, morena. (Quase completo, penso agora, pois não há negras.) Adiante, quando esse exército de Brancaleone do deserto já venceu o vilão imortal – que naturalmente só amedronta porque usa próteses – e precisa ganhar a confiança do povo onde a trama se completa, quem recebe a combalida trupe feminina e seu fiel escudeiro Max? Mulheres. Agora são as gordas, brancas e peitudas mulheres leiteiras.

Enfim. Eu não sei o que isso quer dizer. Ouso pensar que tudo não está ali à toa. Há alguns anos, quando o jornalismo me levou a me interessar por moda – algo em que vejo valor, mas sempre achei secundário – dei com uma realidade chocante: a moda trabalha com uma coisa chamada tendência. E as tais tendências das culturas, dos gostos, dos hábitos etc, são estudadas com afinco muitos anos antes de se lançarem no mercado e, baseadas nelas, as indústrias fabricam os tecidos e acessórios que inspirarão estilistas e vestirão as mulheres.

Acho pouco provável que Hollywood não manipule as torneiras – para usar uma metáfora do filme – conduzindo nosso imaginário pelos caminhos da renda nas bilheterias. As mulheres lindas e arquetípicas são lideradas por Charlize, a Furiosa, de cabelos tosados e fartos atributos masculinos. E os homens, ficariam a ver navios? Não, não há água no deserto; mas há, sim, muita luta. São dezenas de carros toscos que se enfrentam mais do que seus homens, sobrando pouco close para a virilidade de Mad Max. Pneus de toda forma e tamanho são coadjuvantes de peso, com poder até para escalar montanhas de pedras enormes. O grande pneu de borracha do carro do vilão que “roubou o mundo”, é o falo arredondado, a prótese utilizada na batalha pelo “imortal” prestes a ser vencido. Engraçado. Estranho. Curioso.

Um filme feito para arrecadar milhões de bilheteria é também um filme que dialoga com o inconsciente coletivo. E o influencia. A via é de mão dupla, como ocorre com as pesquisas de moda: o que está nas ruas é o que vira produto, o produto aponta para onde devem ir as ruas. Se assim é e se Hollywood não se dá ao luxo de ignorar tendências, a humanidade pode ter esperança. Embora a indústria do entretenimento insista em reduzir o gênero a bunda e peito, mulheres são os seres férteis que acolhem a semente da humanidade e, mesmo com a consciência roubada – como acontece ao povo branco e careca do filme – guardam arquetipicamente o antídoto contra essa luta chata, estéril e sem graça que toma conta do mundo e do poder. Hollywood faria bem em nos apontar, numa sequência da série, o que Furiosa é capaz de fazer para resgatar a humanidade dessas desesperançosas engrenagens.

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Sobre Marcia Savino

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