A miséria bate à porta

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Fala-se muito no país. De política, de corrupção. A TV fala do desemprego dia sim, dia não. Fala da alta dos preços dos alimentos, a níveis absurdos: tomates e cebolas em qualidade cada vez pior e preços cada vez maiores. Fala-se das substituições que as donas de casa têm que fazer. O fato é que tem gente com fome. Mais gente. Não se fala de pobreza e menos ainda de miséria. Exceto a miséria que se vê no planalto central do país.

Sábado desses fui ao centro da minha cidade de 180 mil habitantes fazer compras de última hora para o aniversário da sobrinha. Um homem – talvez da mesma idade que eu (aparentando 20 anos mais) sem dentes, cabelos despenteados – passa com sacos de goiaba nas mãos. Como se sabe, é tempo de goiaba, fruta que está dando para levar. Ele parece um agricultor, me compadeço, vou comprar. O homem me estende o saco, devem ter umas dez goiabas. Dez reais, ele diz, antes de emendar em tom baixo: É pra comprar comida. Nem precisava. Sua cara sofrida, apesar do sorriso, e seus cabelos brancos desgrenhados já tinham me convencido. Ele estende a outra mão: Leva dois sacos. Eu penso: Vinte reais por dois sacos de goiaba? Vai dar não. Levo um.

Atravesso a rua para encontrar minha sobrinha. Espero que ela volte com a lata certa de leite condensado para fazer o brigadeiro fino e, desta vez, um homem mais bem apessoado passa por mim. Ou, eu passo por ele. Ele estava parado na calçada, com um terno amassado, pedindo dinheiro assim: Três reais, moça, três reais paga um prato de comida. Miro aquele homem comprido de cabelo preto e paletó idem, tentando que meus olhos não se prendam demais à cena. Passo rápido e respondo: Infelizmente, não – dito daquela forma que a gente diz quase sem formular palavras. Encontro a sobrinha e voltamos pra casa. Estou feliz com as goiabas, mas encontrar pedintes que argumentam desse jeito me deixou pensativa.

Em casa, é dia de festa. Saio mais uma vez para comprar cerveja. Fico no carro, em frente ao bar, enquanto espero minha irmã fazer o serviço. Vem vindo uma moça com cara de mãe de família. Logo vejo que ela está vendendo aquele amarradinho de jujuba empilhada que não tem gosto de nada que não seja açúcar e corante. Meu Deus, essa moça tá vendendo bala, eu penso. Ela avança pela calçada e meus olhos a alcançam de tal forma que a conduzem à minha janela, já aberta. Leva uma jujuba, é dois reais. Saí de casa sem bolsa e sem dinheiro; começo a catar moedas no carro. Só tenho um real, eu digo. Achei que ela fosse desistir. Ela me responde com: Tá bom, leva assim mesmo. Mas não vai te prejudicar, pergunto? Fico com a jujuba e, como sempre, não sei o que fazer com ela.

Volto pra casa, pra festa, pensando que vivo numa bolha. Conversando no aniversário, meus amigos me confirmam a percepção. É a regra: Sábado é o pior dia, me diz alguém. Enquanto isso, em Brasília, segue o baile regado a mentiras. A verdade, todos sabem, está nas ruas. E além das manifestações políticas. Manifestações da pobreza e dureza da vida dão pouco ibope na TV e não parecem comover os sociopatas que nos governam. O fato é que tem gente com fome. Mais gente.

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Sobre Marcia Savino

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