Que coisa Boa!

Tia Antonina e eu 14 Abr 2014 - 2

 

Que coisa boa! Que coisa boa, ela disse, ao saber que eu tinha chegado. Quem me anunciou foi outra tia, também muito querida, que estava ali no quarto àquela hora. Ouvi a frase auspiciosa naquele momento, sem saber que a exclamação ficaria comigo para sempre. Ela morreu praticamente no dia seguinte. E depois do dia inteiro ao seu lado, a frase que ouvi pela manhã, foi tudo o que ela disse, fora um ou outro muxoxo de muita dor, aplacada com doses de remédio.

Impensável ver assim minha madrinha. Meu anjo, meu feixe de luz, minha alegria em forma de gente, meu sorriso vermelho, minha boca grande, meu dente encavalado, meu cabelo preto, muito preto liso, curto e escorrido, minhas mãos preciosas com veias que saltavam de vida, meus gestos lindos, minha tia querida, alegre de alegria genuína, amante das coisas alegres, das coisas boas, das genuinamente boas, do artesanato, do handmade, dos laços de família, do apoio incondicional aos pais que se foram, à dezena de irmãos e aos sobrinhos – filhos que não teve.

Impensável ver assim minha madrinha e sua voz doce. Mas não era doçura. Minha voz alegre, mas não era alegria; minha voz de concha, minha voz de abraço. Tonina, tia Antonina, Maria Antonina, Tia Tu. Titia tinha voz de abraço, voz de afeto, voz de calor e o sotaque cantado e mineiro da nossa alma de família ecoando, ecoando, ecoando na sua oferecida luminosidade. Não era só minha madrinha, nem só minha a tia querida, era toda nossa, todinha, minha e de cada um, inteira em sua mais-que-bondade, porque não era bondade. Era tudo o que dava à família um colo de amor e suavidade.

Impensável vê-la assim. Mas e agora, vida afora? Não foi pensamento. Foi, sim, minha tia ali, minha madrinha, meu anjo, a pessoa que me encheu de presentes espirituosos e – no mais das vezes – inesquecíveis, desde criança. Presentes sempre, sempre, sempre alegres; sempre coloridos; sempre criativos; sempre inspiradores; sempre evocadores do que há, na vida, de bom e de melhor: a singeleza da alma, a beleza, a simplicidade. Nada de ouro, nem de lata.

Presentes alegres para mim que reverberavam nas outras pessoas – e reverberam ainda, quando uso uma blusa, um brinco, um livro, uma gamela, um colar, uma túnica da Elvira Matilde. Coisas das quais passei a me cercar, a trazer para mais perto de mim, do meu cotidiano, quando ela começou a adoecer. Tão, tão rápido. Passei a reunir e somar presentes e detalhes, não tinha a noção de que eram tantos e tão variados ao longo de tanto tempo.

Ela se foi, em Belo Horizonte, no dia seguinte à minha visita expressa. E continuou me presenteando. Saí de BH com um colar novo, que é a cara dela, que veio por meio de minha mãe, da feira de artesanato e, de tão simples e elaborado, enobrece a quem usa, alegra quem vê. Ela continua me presenteando quando rememoro a natureza da sua presença inesquecível.

Hoje, dia do meu aniversário, vejo, agradecida, que ela me presenteou por fim, com essa frase que agora mora em mim. Que coisa boa!

Teamo, Tiantonina!

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Mad Max: pelos olhos de Charlize

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Não assisti a nenhum dos filmes que antecederam o último Mad Max. Na versão atual, fica claro que o herói passa o bastão a uma heroína. Seria ótimo se o filme se chamasse Furiosa, nome da personagem de Charlize Theron, em excelente interpretação e em cujos olhos, pessoas como eu se ancoram quando cedem ao gosto do marido e se dispõem a acompanhá-lo ao cinema. Porém, avisei logo: se eu não gostar ou se ficar muito impressionada, saio da sala e vou dar uma volta no shopping.

Detesto filmes brutos e detesto filmes masculinos com muita luta e pouco drama, mas de vez em quando vejo alguns. Por mais ostensivo que seja, mal presto atenção ao chamado da mídia, e muitas vezes não sei mais do que o título do grande blockbuster da hora. Assim cheguei a Mad Max e sua paisagem alaranjada. A abertura deve ter sido feita para fisgar os admiradores da franquia, com o impacto das cenas violentas protagonizadas por seres estranhos e pelo mocinho, claro. “Moção”, digamos.

Mas eu gostei do filme. E por quê? Não apenas porque mulheres lideram o enredo. Mas porque mulheres lideram o enredo e provocam aquelas lutas que extasiam os homens, dando a eles a chance de exibirem o seu vigor, enquanto buscam obstinada e corajosamente uma coisa chamada esperança. Hope. Há um inseto chamado, no Brasil, de esperança: é um bichinho verde. Pois naquele ambiente desértico de Mad Max, as mulheres devidamente lindas, rumam para o oeste, em busca do passado verde, numa tentativa de resgate.

Não conseguem. Mas quem elas encontram? Mais mulheres. Que guardam o saber ancestral, que têm sementes na bolsa e que, quando morrem, exibem um pacificado sorriso em meio à face talhada de rugas. É lindo. Quando todos retornam para a batalha final – brilhante ideia do único homem do grupo, Max, que para isso se inspira na desesperança encontrada nos olhos de Furiosa – e que olhos tem Charlize! – as quatro parideiras saem do escudo de cada estonteante beleza e tornam-se brilhantes na luta do bem contra o mal. O naipe é completo: ruiva, loura, mais clara ainda, morena. (Quase completo, penso agora, pois não há negras.) Adiante, quando esse exército de Brancaleone do deserto já venceu o vilão imortal – que naturalmente só amedronta porque usa próteses – e precisa ganhar a confiança do povo onde a trama se completa, quem recebe a combalida trupe feminina e seu fiel escudeiro Max? Mulheres. Agora são as gordas, brancas e peitudas mulheres leiteiras.

Enfim. Eu não sei o que isso quer dizer. Ouso pensar que tudo não está ali à toa. Há alguns anos, quando o jornalismo me levou a me interessar por moda – algo em que vejo valor, mas sempre achei secundário – dei com uma realidade chocante: a moda trabalha com uma coisa chamada tendência. E as tais tendências das culturas, dos gostos, dos hábitos etc, são estudadas com afinco muitos anos antes de se lançarem no mercado e, baseadas nelas, as indústrias fabricam os tecidos e acessórios que inspirarão estilistas e vestirão as mulheres.

Acho pouco provável que Hollywood não manipule as torneiras – para usar uma metáfora do filme – conduzindo nosso imaginário pelos caminhos da renda nas bilheterias. As mulheres lindas e arquetípicas são lideradas por Charlize, a Furiosa, de cabelos tosados e fartos atributos masculinos. E os homens, ficariam a ver navios? Não, não há água no deserto; mas há, sim, muita luta. São dezenas de carros toscos que se enfrentam mais do que seus homens, sobrando pouco close para a virilidade de Mad Max. Pneus de toda forma e tamanho são coadjuvantes de peso, com poder até para escalar montanhas de pedras enormes. O grande pneu de borracha do carro do vilão que “roubou o mundo”, é o falo arredondado, a prótese utilizada na batalha pelo “imortal” prestes a ser vencido. Engraçado. Estranho. Curioso.

Um filme feito para arrecadar milhões de bilheteria é também um filme que dialoga com o inconsciente coletivo. E o influencia. A via é de mão dupla, como ocorre com as pesquisas de moda: o que está nas ruas é o que vira produto, o produto aponta para onde devem ir as ruas. Se assim é e se Hollywood não se dá ao luxo de ignorar tendências, a humanidade pode ter esperança. Embora a indústria do entretenimento insista em reduzir o gênero a bunda e peito, mulheres são os seres férteis que acolhem a semente da humanidade e, mesmo com a consciência roubada – como acontece ao povo branco e careca do filme – guardam arquetipicamente o antídoto contra essa luta chata, estéril e sem graça que toma conta do mundo e do poder. Hollywood faria bem em nos apontar, numa sequência da série, o que Furiosa é capaz de fazer para resgatar a humanidade dessas desesperançosas engrenagens.

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Quanta ignorância, Batman!

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Sempre que me sinto com os ouvidos entupidos pela ignorância no mundo, o raciocínio leva a mesma conclusão: se o povo fosse educado, não teríamos essa quantidade absurda de coisas para afligir a nossa vida. Acho que ocorre da mesma maneira com diversas pessoas sensatas que, embora não apareçam por aí com a mesma distinção de certas outras mais aparentadas com o mal, também habitam este planeta: a rendição ao pensamento de que Educação é a chave.

Os governos, que via de regra propagam que farão tudo e não conseguem fazer quase nada, deveriam focar em uma coisa só: cuidar da educação. O resto vem a reboque. Mas, não. Oxalá fosse óbvio para os governantes e aí haveria investimento, o que é, de fato, determinante. A vantagem da escolha dessa palavra – investimento, é que ela pode significar qualquer coisa. E qualquer coisa investida na direção e forma corretas pode significar muita coisa.

Dos problemas que seriam resolvidos priorizando a verdadeira educação do povo brasileiro, nomeio alguns. Redução do cheiro de mijo em lugares públicos em eventos de massa, tipo o carnaval, por exemplo. Por conseguinte, redução do uso do tempo de servidores públicos na tarefa de limpar o mijo dos brasileiros em grandes eventos. Por conseguinte, redução do gasto com produtos de limpeza e vassouras ou com o que quer que se limpe esse tipo de – com o perdão da palavra – cagada. E, por conseguinte ainda, outras boas consequências em cascata.

Fazendo o mesmo exercício em outra direção, lembremos que a educação molda o caráter. Uma geração de brasileiros educados em princípios éticos claros e retidão moral seria um poderoso adstringente para diversos males da sociedade. Não consigo pensar em nada mais benéfico. Nem mais barato. Exceto, talvez, a formação de exércitos de jardineiros, porque neste caso seria uma forma de educar e cultivar o amor em estado puro – algo extremamente raro, especialmente nas metrópoles. Mas não coloquemos os carros na frente dos bois; vamos devagar com o raciocínio, em nome do entendimento.

Seguindo na mesma linha, dificilmente teríamos tal proliferação de renans calheiros disfarçados de cordeiros, como se vê. Os matemáticos bem podem estudar uma projeção e nos dar os números: que quantidade de políticos honestos – de direita, de esquerda, de centro ou do cacete a quatro – o país poderia colher proporcionalmente ao investimento inteligente e generoso, diga-se, feito em educação durante… 10 anos? Basta uma geração, no país inteiro. Do alto da minha assombrosa ignorância, aposto que o retorno é alto, como convém a uma aplicação feita com sabedoria.

Causa-me espanto a necessidade do país – e os vultosos gastos envolvidos, bem como a proliferação de armários lotados de cabides de empregos – de educar o microempresário. O governo pega adultos porcamente alfabetizados e começa a ensinar o beabá da administração. Faz pesquisas para provar que o brasileiro é empreendedor, mas não ensina na escola. Dã. Já fiquei sem dormir pensando na economia que seria ensinar aos brasileiros desde cedo essa ferramenta básica para a vida adulta.

Felizmente há algum tempo recuperei minhas noites de sono reparador e, como não vivo sem elas, sempre que possível abro mão de sofrer com as mazelas do país. Nunca, porém, consigo esquecê-las: minha educação jesuíta não permite. Mas já que a realidade sozinha não se explica nem convence, adicionar um pouco de nonsense deve ajudar a iluminar o grotesco. Dizer o quê? Santa ignorância, Batman! Ou, melhor: Quanta ignorância, Batman!

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As Ruas e a Pátria Educadora

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De tudo o que vi e ouvi sobre os protestos pacíficos e as reações mais ou menos abjetas, fiquei feliz mesmo com a faixa em São Paulo, onde li, numa foto: CADÊ A PÁTRIA EDUCADORA? Resumo aí a manifestação. Se a presidente da República e o Congresso Nacional respondessem com ações somente a esta pergunta, já estaria de bom tamanho. Mas como a gente sabe que de educadora a pátria de hoje pouco tem, o que fazer, a não ser reconhecer a fragilidade do slogan? Pensar.

Pensar é algo que às vezes ajuda. Pelo que sei do que dizem os livros, a educação vem pelo exemplo. Esta é uma importante maneira de educar. O que dizer do exemplo da presidente da República ao pedir clemência para um delinquente brasileiro na Indonésia e chegar a ponto de não receber o representante diplomático, porque tal país não atendeu aos seus apelos? Fato antigo, eu sei, mas superatual, de tão irresponsável. É o anti-exemplo por natureza. Fico imaginando os presos do país afora pensando: por que ela defende o prisioneiro lá na Indonésia e não eu? É claro como água. Ou como aquele bordão de um humorístico antigo da televisão: Não precisa explicar, eu só queria entender.

Para a situação ficar como está, ou seja, um verdadeiro mar de lama – e ainda tem gente que quer levar a espécie humana para além da Terra (já, já teremos o mar de lama interplanetário) – basta continuar dando o exemplo. É uma máxima irrefutável da educação. Quem já viveu mais um pouco consegue associar fatos, sem precisar de estatísticas e institutos de pesquisa, e perceber a ligação do desabrochar de escândalos de corrupção em Brasília com o aumento dos casos de violência nas páginas dos jornais. Podem chamar os matemáticos, para sacramentar a hipótese com números. E, talvez, ficar tudo por isso mesmo.

Disse Ayres Britto em 16.03.2015, numa entrevista no rádio, que a nossa Constituição não chega a blindar, mas dificulta – e muito – a prisão do chefe supremo do governo e de parlamentares. Não advogo a prisão de ninguém e o que disse o jurista não é novidade. Mas dito assim no calor dos acontecimentos pós-manifestação e com aquela voz de veludo e vago sotaque do Nordeste que remete ao Comendador Zé Alfredo Medeiros fica tudo muito mais real e mais triste. E bem mais difícil de engolir. Não é razoável, até em nome do combate à corrupção – que vem aí com o nome de “pacote” – que esses nossos representantes gozem de tantas prerrogativas legais.

Mas quem está aí para isso? Pois se até a versão da reforma política com a qual Governo e Congresso nos acenam como resposta à insatisfação democrática demonstrada domingo, a tal PEC 352, é de autoria do exemplar ex-deputado do petrolão, Cândido Vaccarezza (PT-SP), e sequer acaba com o financiamento privado das campanhas políticas. Que, só para lembrar (vai que cai no Enem), são de interesse público. De pedagógico mesmo, o que temos hoje é a Operação Lava-Jato. E quem diz isso é um juiz do Maranhão, Márlon Reis, diretor do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE) e um dos artífices da Lei da Ficha Limpa. Pensando bem, o nome desse juiz deveria cair na prova.

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Chove, chuva

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“São as águas de março, fechando o verão / É a promessa de vida no meu coração”

Quanto mais calor fez em janeiro, depois de um dezembro igualmente escaldante, mais os versos de João Gilberto me vinham ao pensamento. Junto com eles, uma lembrança ainda que vaga dos livros da especialista Sônia Hirsch, que dizia sempre, meio em tom de brincadeira e outro tanto de verdade, que devíamos adicionar mais uma às quatro estações: o final do verão. Segundo ela, esse é um período especial e particular, quando as águas chegavam para lavar tudo.

Isso certamente era no tempo em que as estações eram mais definidas, há poucas décadas atrás. Hoje, neste verão quente e seco, escrevo de casaco. Sim, de casaco. Mas o que aconteceu? O tempo, senhores, além de ser senhor da razão, no sentido temporal do termo, atualmente é também imprevisível, no sentido climático da palavra. Eis que em fevereiro, às vésperas do carnaval da seca – ainda não falta água em todo lugar, mas, pelo menos, em vários os lugares – o sol foi embora, um vento frio ameaça de vez em quando e a chuva dá o ar da sua graça.

Chego à casa da vovó para o almoço e a família está em polvorosa com a chuva torrencial prevista para a região serrana às quatro da tarde. As crianças não vão mais à aula (que mal começou). Quatro horas da tarde? Começa o debate. Chuva com hora pra acabar? Nunca vi, diz um. Não acredito, mais um. Consulta à TV, ao Facebook, ao torpedo de alerta da Defesa Civil, aos sites mais confiáveis. Será? Paro o garfo na altura da boca pensando no que fazer. Onde deixar o carro? Fico na casa plana onde estão todos ou vou sozinha para a minha casa de dois andares? Convido a galera? Os pensamentos se vão assim que se sobrepõem os compromissos. E uma conclusão: o que tiver que ser, será.

Aliás, deixa eu tirar o casaquinho. Começou a esquentar de novo. Olho pro céu, nem uma gota.

***

Fora de Friburgo estava e demorei a passar pela praça detonada pelo corte das árvores da Praça Getúlio Vargas. Triste talvez seja que já nem me entristeço mais com os fatos deprimentes da administração pública. Mas ainda me espanto que, como regra, os jardins da cidade estejam permanentemente mal cuidados e que os rios virem matagal constante. Volto ao tema.

***

“É pau, é pedra, é o fim do caminho”.
Foi o poeta quem disse. E faz tempo. Aliás, mesmo que não seja às quatro da tarde, deve vir temporal.

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Vossa Excelência, saia daí!

Vossa Excelência, saia daí

Sofro de uma síndrome de não sei o quê. Acho que é algo comum entre os cronistas. Inclusive, em mim, os sintomas desse mal não são novidade. Costumava usá-los como combustível para minhas crônicas levando o leitor para um passeio ao fim do texto, na intenção de garantir um bom momento de reflexão e relax. Para mim, e para quem usa um átimo do seu tempo lendo o que escrevo, pode ser divertido passear pelas palavras.

Mas ando penando para redigir as últimas crônicas. O peso da responsabilidade me assola. Como admiradora inconteste de Manoel de Barros, poeta que acaba de virar passarinho*, empaco me perguntando como divagar sobre nada ou sobre as coisas desimportantes da vida ao lado das infelizmente necessárias manchetes sobre corrupção? Tento focar nos temas da hora, mas sou obrigada a reconhecer que o contrário é minha vocação. Raspas e restos são tudo o que me interessa. E pior, pratico o delay por esporte. Gosto de deixar passar um tempo para comentar certo assunto.

Desse jeito não consigo juntar as frases. Pra escrever é preciso fazer um bom amarrado no início, de forma que fique um trançado forte e o leitor possa singrar o texto comigo até o final. Variando entre as hard news e, digamos, porra nenhuma, rascunho um texto mole, que não convence nem à escriba. E tenho a convicção de que nem eu, nem ninguém merece ler uma notícia de manhã no jornal, saber da repercussão no facebook, rever a manchete no site, ouvir o mesmo áudio no rádio e à noite last but not least, assistir a tudo de novo na tv.

Não mereço saber que mais um homem violentou uma mulher, que outro homossexual foi atacado, que a falta água vai nos asfixiar em breve futuro, que a presidente mal define o seus ministros, que mais donativos foram esquecidos, destruídos ou roubados. Já nos casos de corrupção, repudiar é o verbo da hora. As denúncias se avolumam e eles dizem o quê em cadeia nacional fazendo de seus ventríloquos os locutores de bancada? Eu repudio, tu repudias, ele repudia. Não entendo com ainda chamam as notícias de “News”, porque, obviamente, de novo nada têm. Isto sim é o verdadeiro vazio. Ao contrário da poesia, diga-se.

Acabo me sentindo um tanto ridícula opinando sobre política, fora o fato de que me dá muita raiva toda essa repetição e mesmice. É tudo tão óbvio, que resumo assim: enquanto Renan Calheiros não estiver na cadeia; enquanto estiver este senhor fazendo sucessor, ora, façam-me o favor! Não é possível levar a sério essa bagunça. Rascunhei esse texto no início da semana e surpreendentemente, hoje ao abrir o jornal, me vejo absolutamente atual.

Tenho a rara chance de um gancho para o título. De onde escrevo – uma modesta escrivaninha em uma das mais de cinco mil cidades deste país – minha indignação é inócua. De que adianta escrever com garra: tirem o lobo da porta do galinheiro, tirem de lá o Renan Calheiros? Mas eis que um senador cuja índole desconheço, de repente berra da nossa tribuna, um lugar bem mais audível: “Vossa Excelência, saia daí!”

*Momento de pausa: cuiabano, o poeta certamente virou tu-you-you!

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Nós, mulheres, e nossas unhas

Nós, mulheres, padecemos de alguns males diferentes dos outros seres humanos. Ir à manicure regularmente é um deles. Pra mim, pelo menos, sempre foi um suplício ficar de mãos estendidas por, no mínimo, meia hora para sair de lá com as pontas dos dedos pintadas e brilhantes. Agora pelo menos, em alguns casos, estamos livres da obrigação de marcar esse horário na agenda, porque há lugares em que é possível ser atendida sem marcar.

Mas aí… você não sabe se a manicure é boa ou ruim, rápida ou lenta, faladora ou calada, gente boa ou um porre, atenciosa ou não. Prefiro manicures rápidas, sempre. Fora isso, boa para mim é aquela que não me corta nem de levinho. Mas há algumas que são excepcionais: excepcionalmente boas ou excepcionalmente rápidas. Conheço a Neia, a quem chamo de “a melhor manicure do mundo”: rápida e perfeita, ela faz pé e mão em exatos 60 minutos. Pena que, me dividindo entre duas cidades, meus caminhos e horários não têm cruzado mais com os dela.

De tanto odiar a função, passo o tempo driblando o tédio, mesmo depois de escolher – quando posso – as manicures rápidas. Pra começar, costumo desligar os ouvidos, pois odeio papo de salão. Quando não quero ou não consigo aproveitar o tempo com meus próprios pensamentos, leio Caras. A sensação de ler Caras no salão é dúbia: enquanto olho as fotos, vasculho as idades dos personagens e analiso os vestidos, parece entretenimento. Mas quando fecho a revista e a moça ainda está lá terminando a unha, o gosto é de comida estragada. Mas aí, já comi.

Ultimamente tenho preferido estabelecer um momentâneo relacionamento com a profissional que me trata. Como, pela ojeriza de marcar hora para o suplício, não sou fiel a nenhum estabelecimento, meço a temperatura da sessão pelos seus primeiros movimentos e utilizo o papo com manicures desconhecidas como forma subliminar de evitar os bifes. Funciona, mas na vida não se pode ter tudo. Normalmente, quando a manicure é rápida ou boa, chego em casa com o esmalte cheio de bolinhas. Ou ela é tão profissional, que não me dá a mínima atenção.

Mas hoje, precisando fazer pé e mão em cima da hora para um compromisso amanhã, me preparei para o que quer que fosse. Eis que encontro uma profissional dedicada; ela mesma de unhas grandes, lixadas e limpas. Uma raridade. Salão vazio, vejo ao longe o suporte de revistas, penso em pedir uma. Ato seguinte, desisto e já estou conversando com a Ju. Suas mãos são bonitas e tratadas; e o manuseio do alicate, preciso. Sorte!

Minha pergunta inicial é sempre a mesma: você trabalha há muito tempo aqui? Não. A Ju faz unhas em domicílio de segunda a quarta, mas antes trabalhava num restaurante a quilo. Ju capricha no tratamento, sinto que minhas cutículas estão delicadamente indo embora. Com a voz calma ela começa a me contar porque saiu do restaurante; eu me interesso e sigo perguntando. O restaurante, um dos mais antigos da cidade, não é um primor de higiene, pelo contrário. A cidade é pequena, ela me diz o nome. Eu caio pra trás: todo mundo vai, todo mundo conhece.

Eis o relato: <em>Me colocaram para fazer a salada. Eu era nova na casa. Um dia eu estava lá lavando a alface, chega outra funcionária e pergunta o que eu estou fazendo. Lavando, digo. Mas não é pra lavar, não. Como? Tomate, nada é lavado. Os pratos até são esterilizados, mas o restaurante não tem nenhuma higiene. </em>Mas se a comida não é, o que adianta?, pergunto. <em>Pior são os ratos. </em>Ratos? <em>Têm muitos; eles botam veneno à noite e no dia seguinte tiram o rato morto da cozinha. </em>Penso que a moça não sabe que está falando com uma jornalista. E a Vigilância Sanitária? Parece que eles compram, ela me diz. A conversa tem outras revelações cabeludas, mas acho melhor não contar aqui.

O tempo passa e, quando olho no relógio foi-se quase uma hora. Simplesmente abomino gastar mais de meia hora fazendo as mãos, mas desta vez me rendi. Como o Rei Shariar, em As Mil e Uma Noites, entretive-me com a história e não vi a passagem do tempo. Não percebi que a Ju era ótima, mas lenta para os meus padrões de impaciência. Pensando melhor, eu é que dei linha na pipa, já que o meu pé ela fez rapidinho. E bem. Mas não é que eu estou em casa com o esmalte da mão cheio de bolinhas? Ju, me aguarde, vou voltar.

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